OESP
O presidente Luiz Inácio da Silva não agüentou uma semana. Bastaram
três pesquisas de opinião confirmando seu favoritismo na eleição para
ele deixar de lado o personagem "Lulinha paz e amor", cuja
ressurreição havia anunciado dias atrás.
Absolutamente convicto de que é imbatível, começou a cantar vitória
de véspera; certo de que é também inimputável, convidou a oposição a
pôr os escândalos de corrupção envolvendo seu governo, seu partido e
seus aliados no centro dos debates da eleição.
De um presidente da República seria de se esperar a condenação dos
malfeitos, a defesa da correção no futuro e não uma manifestação de
orgulho da própria capacidade de enfrentar a reedição de toda a crise
que desmoralizou o PT, deixou perplexo o País, dissolveu valores e
consolidou a desfaçatez como padrão de conduta.
De um candidato amplamente favorito seria de se esperar uma atitude
sóbria, fria, calculadamente serena para não dar ao adversário
perdedor a oportunidade de apresentar armas e com ele se ombrear no
bate-boca.
De um homem preparado para o sucesso seria de se esperar habilidade
para administrar a bonança com humildade, sem abrir flancos ao
inimigo. Ainda mais quando o oponente vive momentos de aflição,
desânimo, atordoamento e divisão em sua base.
Em menos de 48 horas, Lula conseguiu o que parecia até então
impossível: suspendeu a briga na oposição e abriu para Geraldo
Alckmin um precioso espaço de visibilidade nacional. Já na sexta-
feira, o tucano dividia com o presidente em condições quase de
igualdade o noticiário sobre a campanha.
O PFL suspendeu temporariamente seu ofício de atirar para dentro, os
tucanos acordaram de sua letargia e saíram braços dados em campo nos
ataques ao presidente. Animaram-se, acordados pelo próprio Lula.
Foram todos contra um, porque ao presidente do PT, Ricardo Berzoini,
e ao ministro Tarso Genro ninguém deu atenção. Alckmin inclusive
avisou que não fala com o segundo time. "Só respondo ao Lula", disse,
atuando conforme a deixa dada pelo candidato favorito, de totalmente
imprudente favoritismo.
E para quê? Para fazer Alckmin perder as estribeiras, insultá-lo e,
assim, atrair a ira dos eleitores que majoritariamente querem a
reeleição? Não pode ser. Primeiro, porque o tucano ainda nem
encontrou as estribeiras para poder perdê-las. Segundo, porque já
está perdendo e, portanto, só tem a ganhar, seja qual for seu
movimento. Terceiro, porque Lula perdeu, com a crise, quase toda a
sua tropa de defesa, está praticamente na dependência de si mesmo e
quanto mais flancos desguarnecer, mais lacunas terá de preencher.
Quanto mais alto falar, mais gritos será obrigado a dar. E isso tudo
sem a menor necessidade. Por pura compulsão ególatra de fazer marola
em maré mansa.
Jurisprudência
O pedido do governo para a Justiça Eleitoral "autorizar" o uso das
logomarcas "Brasil, um país de todos" e dos vários programas oficiais
no período de julho a outubro, quando a lei veda a veiculação de
publicidade institucional, é só uma tentativa de fugir à regra com a
chancela do TSE.
A legislação permite exceções. Mas, se for examinada e levada em
conta a experiência anterior de reeleição presidencial, o TSE terá
dificuldade para justificar a autorização.
Em 1998, o governo Fernando Henrique teve de retirar de cena por três
meses a logomarca "Brasil em ação". Só no Ministério dos Transportes
foram repostas ou pintadas 5 mil placas em obras de todo o País.
Como o atual governo está fazendo um exame detido da organização do
governo FH no período pré-eleitoral, de duas, uma: ou não fez a
análise direito, ou tem informação de bastidor de que o TSE pode dar
agora uma interpretação favorável à liberação da propaganda.
O governo argumenta que o uso das marcas não estabelece conexão com a
candidatura do presidente Lula e diz que elas são "imprescindíveis ao
reconhecimento dos programas por seus usuários".
Como as marcas existem há três anos e meio e não poderão ser usadas
apenas por três meses, só se forem imprescindíveis ao reconhecimento
do eleitorado.
Braços fortes
Todas as pesquisas recentes confirmam que o PMDB não influi nem
contribui para alterar o cenário eleitoral. O partido ficou sem
candidato e tanto Lula quanto Alckmin mantiveram a mesma proporção
nas intenções de voto. Seu poder durante a campanha revelou-se uma
lenda.
O PMDB é importante depois, para o eleito a quem oferece sua força de
trabalho no Congresso mediante compensações e sob o nome de
governabilidade.
Dádiva
Sem candidato a candidato a presidente, o horário de televisão e
rádio do PMDB é distribuído entre todos os concorrentes. Para os
grandes pode não fazer diferença, mas para Heloísa Helena, Enéas e
Cristovam Buarque serão minutos preciosos.