| PRIMEIRA LEITURA |
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| O governo Lula é infame. É o mais infame da história. Porque jamais a distância entre discurso e gesto foi tão grande. Porque jamais as palavras e os atos serviram tanto ao propósito de enganar, de iludir, de manipular a opinião pública. Será um desastre ético para o país se o Apedeuta for reeleito. E seremos todos forçados, de algum modo, a perscrutar a culpa coletiva se isso acontecer; será preciso pensar, vejam vocês, na moralidade do eleitor. Por que não? Não será a primeira vez que o povo coonestaria indignidades. Os motivos que me levam a escrever isso são os mais diversos e poderiam se estender de A a Z, repetindo muitas vezes cada uma das letras. O caso da hora é a vergonhosa, escandalosa mesmo, intervenção que o Exército faz no Rio. Há quanto tempo o crime organizado faz a população refém de seus negócios e de seus caprichos? Há quanto tempo já se sabe que o tráfico de drogas se organiza, sim, como força de guerra, e, pois, seu meio tático é ocupar território? Há quanto tempo áreas da cidade estão sitiadas, vedadas à ação da polícia porque os donos do pedaço não deixam? Há quanto tempo está claro que o modelo desenvolvido nos morros do Rio está sendo clonado em outras capitais brasileiras, incluindo São Paulo, embora, nesses casos, a geografia impeça o escancaramento da guerra, como acontece na Cidade Maravilhosa? Sim, porque isto também é verdade: o Rio não é a cidade mais violenta do país; é tão-somente aquela onde a violência ganha mais visibilidade. E o que fizeram as Forças Armadas sob o governo Lula durante todo esse período? O que se sabe da ação da força especial criada por Márcio Thomaz Bastos, o Rolando Lero da Justiça? O que foi feito do Plano Nacional de Segurança, cujos fundos foram rapados por Antonio Palocci, o chefe de Vladimir Poleto (lembram? Aquele com cara de Zé Trindade, envolvido na operação Cuba)? O governo brasileiro caminha como barata tonta. É apenas reativo — e, ainda assim, tardiamente reativo. Quando o Poder Público decide fazer alguma coisa, toma uma decisão como a do STF, que permite que condenados por crimes hediondos sejam postos em liberdade. É a população pobre, mais uma vez, pagando o pato da desídia oficial. Bom, mas parece que ela anda contente com Lula, não é mesmo? Também as oposições se calam em horas como estas. Ninguém disse uma miserável palavra sobre a decisão do Supremo. Não se ouve uma miserável palavra sobre a pantomima do Rio. Parece que os entes ocupados com a política institucional estão por demais ocupados com outros assuntos para se preocupar com a segurança dos pobres. É um escárnio. Enquanto isso, homens das Forças Armadas brasileiras estão, sim, combatendo o crime comum de forma regular numa favela: lá no Haiti. Lula é uma piada macabra. Por que o tom irado deste texto? A soldadesca só resolveu ocupar os morros e vielas porque, desta feita, ferida em sua honra corporativa. Os bandidos decidiram avançar o sinal. Até havia pouco, seqüestravam apenas a cidadania dos miseráveis, dos trabalhadores, da classe média que dribla balas perdidas ou põe vidros blindados nas janelas. Estava tudo certo. Lulinha poderia continuar com o seu discurso triunfalista, e Thomaz Bastos seguia com o seu incrível nariz empinado, um misto de Cyrano de Bergerac do Direito e Cardeal Richelieu da Nova Classe Social. E, com a voz empolada, secundado por constitucionalistas de araque, pontificava: Forças Armadas não foram feitas para combater crime comum. Não foram mesmo. Mas quem disse que é comum? Ah, agora tudo mudou. Dez fuzis e uma pistola foram roubados de um quartel do Exército. A mensagem passada é clara: se “bandidos comuns” podem fazer isso com a nossa força de guerra, o que não poderia fazer uma real “força de guerra” — ou um grupamento terrorista, organizado como tal? Nossos homens se encheram de brios. E resolveram subir o morro. Mas não sobem o morro para desalojar o poder do tráfico, que arriou a bandeira nacional para hastear a sua; não sobem o morro para fazer valer os valores da Constituição; não sobem o morro para dizer que, ali também, vale o Estado de Direito. Sobem o morro atrás de seus fuzis; sobem o morro atrás de sua pistola; sobem o morro atrás de sua honra, ferida por meia dúzia de bandidos mequetrefes; sobem o morro para se encontrar com a desonra do governo, do Estado, da legalidade. O artigo 142 da Constituição não deixa a menor dúvida: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Por iniciativa de qualquer dos Poderes Constitucionais, os soldados podem ser mobilizados, a qualquer tempo, para garantir estes próprios Poderes e, explicitamente, “a lei e a ordem”. Ora, não estão sendo cotidianamente esbulhadas a lei e a ordem no Rio e em algumas capitais brasileiras? Afinal de contas, já que, felizmente, não estamos em guerra com nenhum outro país, do que se ocupam os militares brasileiros quando não estão abortando vôos civis para embarcar de braço dado com a patroa? O que justifica que não se mobilize tal efetivo no combate ao crime organizado? Qual é o medo? Por que tememos a nossa Constituição? A guerra que o narcotráfico promove no país se dá contra os brasileiros e as instituições, mas não se vê aí motivo para acionar o Exército. Ele só é chamado quando parece individualmente convocado: “Opa, meteram a mão no nosso território; agora a gente age”. Não sei se entendem o que há de eticamente escandaloso nisso. Nessa hora, o Exército é igualado, simbolicamente, à bandidagem: até que cada um fique cuidando do seu próprio quintal, tudo bem. Lula está na Inglaterra. Parte da imprensa brasileira se refestela, deslumbrada, com a presença do Apedeuta na ilha da rainha. Afinal, a Nova Classe Social chegou lá. E os brasileiros, reféns dos bandidos, que se danem. Afinal, é verdade, eles próprios escolheram o seu destino. PS: Anotem aí: os próprios chefes da bandidagem entregarão as armas ao Exército — é bem capaz que ainda matem os responsáveis pelo assalto. Com as armas debaixo do braço, os militares voltam para os quartéis, e as ruas ficam, de novo, entregues ao crime organizado. A paz, então, volta a reinar... |