O velho sábio que habita a Folha e que cito ocasionalmente conta a seguinte história: Era uma vez um governador de São Paulo (já morreu, não se preocupem portanto os ex-governadores), muito amigo do sábio. Um dia, este resolveu perguntar porque ele gostava tanto de ser governador, já que parecia mais talhado para o Parlamento. "Meu caro, você sabe lá o que é passar quatro anos sem precisar pôr a mão na maçaneta de qualquer porta?" (pela óbvia razão de que há sempre um assessor para abri-la). É um hábito bem brasileiro esse de os poderosos se servirem de mordomias, prosaicas como a acima descrita ou bem mais suculentas (como a de fazer parar um avião prestes a decolar). Em outras partes não é assim, como vimos ontem os jornalistas brasileiros que acompanhávamos a cerimônia oficial de chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Londres. De repente, do meio do nada, surge, caminhando, o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Sozinho, sem um "aspone" ou segurança à sua volta. Pior (ou melhor): segurando ele próprio o guarda-chuva e com ele protegendo seu vice-primeiro-ministro, John Prescott. Tudo bem que Blair trabalha bem perto do Palácio de Buckingham, quase vizinho. Caminhar de Downing Street, seu endereço, até a entrada oficial de Buckingham (a Guards Horse) não esfalfa ninguém. Mas duvido que, no Brasil, ainda mais sob chuva forte, qualquer ministro (já nem digo o presidente, seja quem for) faça esse tipo de, vá lá, "sacrifício". Menos ainda se permitirá o gesto de proteger um subordinado dos pingos d"água em vez de ser por ele protegido. Ousaria dizer que é um dado cultural. Já vi em outros países europeus pequenos gestos do gênero. No Brasil, nunca. Ah, depois da cerimônia, Blair pegou seu guarda-chuva e, de novo, ofereceu-se para preservar Prescott do aguaceiro. Sozinhos, ambos. |