terça-feira, março 07, 2006

Editorial Correio Braziliense Política para o álcool

Política para o álcool

Editorial
Correio Braziliense
7/3/2006

Há certos filmes cuja reprise não atrai o interesse dos brasileiros. Um deles é o Proálcool. Há 30 anos, o programa constituiu-se êxito absoluto na busca de energia alternativa ao petróleo. O setor sucroalcooleiro recebeu subsídios generosos do governo. Em 1985, 92% da frota de carros fabricados no Brasil era movida a álcool. Apesar do sucesso, no fim da década de 80 começou a crise do abastecimento.

Os usineiros, então como hoje, perseguiram os preços mais favoráveis. Passaram a produzir açúcar, mais rentável no mercado externo. Depois de via-crúcis marcada por longas filas e carros impossibilitados de circular, a participação dos veículos abastecidos com álcool despencou para 1%. Foi a desmoralização de uma experiência promissora.

Hoje mais de 1,3 milhão de veículos bicombustíveis circulam pelas cidades brasileiras. A recuperação do setor se deve, em boa parte, a empréstimos concedidos pelo BNDES com juros abaixo dos do mercado. Cerca de US$ 1 bilhão engordaram o caixa dos usineiros em 2004 e 2005. Mas, apesar da lição do Proálcool, a história ameaça repetir-se. Só este ano, o combustível subiu 15% nas bombas. A explosão do preço se deve à lei da oferta e da procura.

Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), a última safra sofreu os efeitos do calor e da estiagem. Perderam-se 2,5% da produção. Somam-se a esse fator o aumento da demanda, os efeitos da entressafra e a elevação em 2005 de 55% do preço do açúcar no mercado internacional, que levou os empresários a preferir a produção do açúcar ao álcool.

As providências do poder público vieram com atraso e tiveram a marca do passado. O governo firmou acordo com os usineiros para manter o preço do produto estacionado em R$ 1,05 na usina. De nada adiantou o acerto. O empresariado não o cumpriu. Veio, então, outra providência — a redução da mistura do álcool na gasolina: de 25% para 20%. Ao contrário do esperado, o preço subiu.

Atropelado pelos fatos, o governo ameaça endurecer. A regulação seguirá à do petróleo, do diesel e da gasolina. Significa que o mercado interno terá preferência sobre o externo. Além disso, ante fortes suspeitas de sonegação no setor, a Receita Federal promete uma fiscalização por meio de medidores de vazão, a exemplo de iniciativa adotada nas cervejarias.

É lamentável que tecnologia que desperta o interesse internacional tenha a imagem embaçada pela falta de uma política para o álcool. Os brasileiros esperam que a crise contribua para a fixação de regras claras. Com elas, traçam-se limites. E a população será poupada de assistir a mais uma reprise da novela de confrontos entre governo e usineiros.