| Jornal do Brasil |
| 7/3/2006 |
Por decisão do Supremo Tribunal Federal, autores de crimes hediondos agora têm direito ao benefício da progressão da pena - gentileza jurídica que costuma reduzir consideravelmente a duração do castigo imposto a um condenado. As togas foram coerentes: estenderam a bandidos de baixa linhagem (e alta periculosidade) a indulgência esbanjada nos últimos meses em julgamentos envolvendo pilantras que usam os talheres certos. Até um Fernandinho Beira-Mar já pode sonhar com a liberdade. Se contiver a mania de liqüidar presos vizinhos, será premiado por bom comportamento, que apressa a saída da gaiola. Em poucos anos poderá brilhar na Sapucaí, convidado por alguma escola de samba que resolva cantar a misericórdia dos ministros do STF no começo do terceiro milênio. Faria uma boa dupla com Suzane Richthofen, a universitária de 19 anos que planejou a morte a pauladas do pai e da mãe. A execução foi consumada por dois irmãos, um dos quais namorava a filha cruel. Os seqüestradores do publicitário Washington Olivetto rebolariam num carro alegórico que teria como destaque principal o traficante Elias Maluco, carrasco do jornalista Tim Lopes. Outro carro, reproduzindo uma grande lavanderia repleta de cédulas verdes, juntaria o doutor Paulo Maluf, seu filho Flávio, o juiz Lalau, Duda Mendonça, Toninho da Barcelona e outros doleiros que chapinharam no Pântano do Planalto. O ministro Nelson Jobim, ressalve-se, foi contrário à medida que ampliou os horizontes dos condenados por crimes hediondos. Mas o conjunto da obra garante ao presidente do Supremo o topo do carro que fecharia o espetáculo. Jobim seria escoltado por protegidos de estimação como José Dirceu, Paulo Okamotto, João Paulo Cunha ou o Professor Luizinho. Bonito, isso. E o Supremo merece.
No meio da viagem, o viajante resolveu que o avião faria uma escala em Brasília. O comandante aterrissou na capital federal, o passageiro desembarcou perto de casa. Tornou-se, assim, o autor do primeiro seqüestro aéreo por meios pacíficos. Na Quarta-Feira de Cinzas, revelou o jornalista Elio Gaspari, o general Francisco Albuquerque, comandante do Exército, protagonizou uma façanha do gênero. No aeroporto de Viracopos, em Campinas, o superlotado avião da TAM preparava a decolagem para Brasília quando o general chegou em companhia da mulher. O mais vistoso quepe do país ordenou ao DAC que detivesse o aparelho e, aos funcionários da TAM, que resolvessem o problema. Dois passageiros toparam ceder as poltronas necessárias. Sem um só tiro, o general venceu a Batalha de Viracopos. A nação pode dormir tranqüila. Está protegida. |