terça-feira, março 07, 2006

AUGUSTO NUNES Indulgência irresponsável

Jornal do Brasil
7/3/2006

Por decisão do Supremo Tribunal Federal, autores de crimes hediondos agora têm direito ao benefício da progressão da pena - gentileza jurídica que costuma reduzir consideravelmente a duração do castigo imposto a um condenado. As togas foram coerentes: estenderam a bandidos de baixa linhagem (e alta periculosidade) a indulgência esbanjada nos últimos meses em julgamentos envolvendo pilantras que usam os talheres certos.
Nem as mais audaciosas ONGs em ação nos presídios ousaram aplaudir a decisão tão atrevida. Só se ouviu o som das palmas nas celas habitadas por assassinos patológicos, parricidas, seqüestradores e outras subespécies da perversidade que, em países civilizados, dormem em catres até o fim da vida.

Até um Fernandinho Beira-Mar já pode sonhar com a liberdade. Se contiver a mania de liqüidar presos vizinhos, será premiado por bom comportamento, que apressa a saída da gaiola. Em poucos anos poderá brilhar na Sapucaí, convidado por alguma escola de samba que resolva cantar a misericórdia dos ministros do STF no começo do terceiro milênio.

Faria uma boa dupla com Suzane Richthofen, a universitária de 19 anos que planejou a morte a pauladas do pai e da mãe. A execução foi consumada por dois irmãos, um dos quais namorava a filha cruel. Os seqüestradores do publicitário Washington Olivetto rebolariam num carro alegórico que teria como destaque principal o traficante Elias Maluco, carrasco do jornalista Tim Lopes.

Outro carro, reproduzindo uma grande lavanderia repleta de cédulas verdes, juntaria o doutor Paulo Maluf, seu filho Flávio, o juiz Lalau, Duda Mendonça, Toninho da Barcelona e outros doleiros que chapinharam no Pântano do Planalto.

O ministro Nelson Jobim, ressalve-se, foi contrário à medida que ampliou os horizontes dos condenados por crimes hediondos. Mas o conjunto da obra garante ao presidente do Supremo o topo do carro que fecharia o espetáculo. Jobim seria escoltado por protegidos de estimação como José Dirceu, Paulo Okamotto, João Paulo Cunha ou o Professor Luizinho.

Bonito, isso. E o Supremo merece.


Batalha no aeroporto
Ministro da Fazenda do governo João Figueiredo, Ernane Galvêas é um economista sério e competente. Mas entrou para a História como passageiro da Varig. Embora a era dos militares já estivesse em sua fase terminal naquela primeira metade dos anos 80, os dignatários do regime - fardados ou paisanos - ainda falavam grosso. Foi o que fez Galvêas num vôo direto entre Nova York e o Rio de Janeiro.

No meio da viagem, o viajante resolveu que o avião faria uma escala em Brasília. O comandante aterrissou na capital federal, o passageiro desembarcou perto de casa. Tornou-se, assim, o autor do primeiro seqüestro aéreo por meios pacíficos.

Na Quarta-Feira de Cinzas, revelou o jornalista Elio Gaspari, o general Francisco Albuquerque, comandante do Exército, protagonizou uma façanha do gênero. No aeroporto de Viracopos, em Campinas, o superlotado avião da TAM preparava a decolagem para Brasília quando o general chegou em companhia da mulher.

O mais vistoso quepe do país ordenou ao DAC que detivesse o aparelho e, aos funcionários da TAM, que resolvessem o problema. Dois passageiros toparam ceder as poltronas necessárias. Sem um só tiro, o general venceu a Batalha de Viracopos.

A nação pode dormir tranqüila. Está protegida.