FSP
No debate sobre os resultados da política econômica do governo Lula, duas questões se destacam: a solvência externa e o potencial de crescimento de nossa economia. Uma prova dessa polarização de certa forma inédita pode ser encontrada na imprensa nestes últimos dias. No mesmo instante em que o IBGE divulgava a queda do PIB no terceiro trimestre de 2005, o chamado risco Brasil chegava ao mais baixo nível dos últimos anos. No papel mais negociado em mercado, o chamado Brasil 40, o risco ficou abaixo dos 300 pontos.
Para uma economia que procura abrir-se cada vez mais para o mundo, a questão da solvência externa é crucial. Principalmente para um país como o nosso, que tem em sua "folha corrida" momentos de grave desequilíbrio externo. Não adianta trazer à mesa de debates o exemplo da Argentina e seu pouco-caso com seus compromissos financeiros. O que vem acontecendo com a economia vizinha é um ponto fora da curva no universo das nações em desenvolvimento, e não um exemplo a ser seguido. Acredito que uma das condições necessárias para entrarmos em um longo período de crescimento sustentado seja manter nossa solvência externa em níveis de grande solidez e confiança.
Quando analisamos o resultado de nossa conta corrente neste encerrar de 2005 e as projeções para o próximo ano, quase não reconhecemos o Brasil das últimas décadas. Em três anos, acumulamos um superávit superior a US$ 30 bilhões. Temos a mesma sensação de espanto quando olhamos a evolução de nossas reservas internacionais livres: US$ 20 bilhões em 2003, US$ 27,5 bilhões em 2004 e projeções de US$ 55 bilhões e US$ 75 bilhões, para 2005 e 2006, respectivamente. Se ousarmos um pouco e projetarmos para o primeiro ano do próximo mandato presidencial, vamos nos assustar mais ainda: US$ 87 bilhões.
A mesma incredibilidade acontece quando olhamos a possível evolução de nossa dívida externa líquida -descontadas as reservas em moeda forte- durante os próximos anos. Em fins de 2006, a dívida externa líquida de empresas e do governo pode chegar a US$ 85 bilhões, caindo para menos de US$ 70 bilhões em fins de 2007. Em 1999, ela era próxima a US$ 200 bilhões, ou seja, praticamente o triplo do valor estimado pelo mercado para 2007.
Esses números projetados para 2006 e 2007 vão depender da continuidade do cenário externo benigno que existe hoje. Essa hipótese não me parece uma manifestação de voluntarismo ou de otimismo excessivo com a economia global de hoje. Existe uma probabilidade grande de que ela venha a acontecer. Por isso o chamado risco Brasil atingiu nos últimos dias valores inimagináveis há poucos anos.
Mas, se o otimismo com a solvência externa do Brasil é hoje uma sensação real e crível, o mesmo espírito não encontramos quando se fala de crescimento econômico. A economia brasileira vai crescer em 2005 quase a metade da taxa dos Estados Unidos nos últimos anos. Por incrível que pareça, o crescimento brasileiro está próximo do do Japão, um desempenho medíocre e absurdo para quem acompanha com certa profundidade a economia do país do sol nascente.
Além disso, quando se olha para o mundo emergente, o sentimento de desânimo é ainda maior. O crescimento médio de nosso PIB deve ser de apenas 2,4% no período 2001 a 2005, repetindo os números obtidos entre os anos de 1997 e 2000, quando o contexto internacional era muito menos favorável. Entre os emergentes, os números foram de 6,2% no primeiro período e de 4% no segundo.
O quadro que se abre para o próximo presidente, com uma situação externa de excelente qualidade e uma inflação da ordem de 4,5% ao ano, é muito parecido com o que tivemos em 1966, durante o regime militar.
Depois de um período marcado por uma política econômica extremamente ortodoxa e que provocou um grande ajuste macroeconômico, seguiu-se um período de desenvolvimento acelerado. Será que a história vai colocar Lula e Palocci lado a lado com o general Castello Branco e Roberto Campos?
Entrevista:O Estado inteligente
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