Entrevista:O Estado inteligente

sábado, dezembro 10, 2005

Merval Pereira Ser ou não ser?

O GLOBO

A dificuldade cada vez mais acentuada de se reeleger, revelada por pesquisas eleitorais, está tirando a tranqüilidade do presidente Lula, levando-o a fazer avaliações completamente despropositadas, como a de que a oposição brasileira é golpista como a venezuelana.

Ele, que já havia dito que na Venezuela de seu amigo Hugo Chávez há democracia demais, agora se mete na política interna do país para criticar a atuação política do empresariado anti-Chávez, num momento em que o país ainda não se refez do trauma da última eleição, boicotada por 75% do eleitorado e pelos partidos políticos de oposição que, num suicídio eleitoral, deram a Chávez o controle total do Parlamento e a quase certeza de poder se candidatar a um quarto mandato em 2012. No que já é classificado de "despotismo legislativo".

Se meter em questões internas, como fazia quando era um simples líder sindical, não é novidade para Lula, que recentemente disse que torcia pela vitória do líder indígena Evo Morales na Bolívia, e deu trabalho ao Itamaraty para consertar a gafe. Não é por acaso que nos últimos dias têm sido constantes as informações de que o presidente Lula voltou a estar inclinado a não se candidatar. Duas pesquisas de opinião recentes indicam que a situação eleitoral do presidente nas duas principais cidades do país é desalentadora.

O prefeito Cesar Maia divulgou num site uma pesquisa do Instituto GPP, que ele utiliza normalmente, realizada dias 3 e 4 de dezembro com mil eleitores na capital. A avaliação de 84% dos cariocas sobre Lula vai de regular (42%) a ruim (42%). Em todo o Estado do Rio, a situação é semelhante: 42% consideram o governo Lula regular e 40% ruim. Na cidade de São Paulo, pesquisa realizada pela Federação do Comércio revela que 65% dos paulistanos não votariam no presidente Lula.

Também em entrevista ao jornalista Mino Carta, na edição deste fim de semana da revista "Carta Capital", o presidente faz considerações ambíguas sobre a reeleição. Diz, por exemplo, que só será candidato se não tiver que vender a alma ao diabo nas alianças políticas. "Caso contrário, se ganhar é vitória de Pirro, ganha e não governa", pontifica Lula. Em outro trecho da entrevista, claramente referindo-se ao seu ex-coordenador político José Dirceu, diz que "alguém andou sonhando muito" quando montou a base parlamentar, e que "dinheiro não ganha eleição".

Lula diz também que só concorrerá para vencer, e não para disputar. E que sabe que sua candidatura é importante para o PT, que está "fragilizado" pelas denúncias de corrupção. E completa: "A não ser que devolva aos acusadores as acusações que fizeram contra ele". Temos nesse conjunto de respostas e comentários uma radiografia perfeita de como anda a cabeça de nosso presidente. E, mais que isso, a reafirmação de que a orientação política do PT vem dele mesmo. A tática de tentar marcar os adversários com a pecha de que todos são iguais nas falcatruas eleitorais do caixa dois faz parte da estratégia candidamente revelada por Lula na entrevista.

Quando diz que quem vende a alma ao diabo não consegue governar, parece estar falando de seu próprio governo, que fez as alianças políticas mais esdrúxulas para vencer a eleição e, sabe-se agora, incentivadas por muito dinheiro. Quando diz que só entra na disputa para vencer, revela um estado de espírito até compreensível para quem perdeu três eleições seguidas e não gostaria de deixar o Palácio do Planalto, depois de uma vitória consagradora, novamente derrotado. O presidente se debate entre preservar seu prestígio político em 2006, quem sabe até mesmo para uma eventual volta ao poder, e ajudar a recuperar o partido que criou do zero com a força de sua liderança sindical.

Apresenta-se para o presidente Lula uma rara oportunidade de saída honrosa com o movimento pelo fim da reeleição. Lula reconhecidamente nunca apoiou esse mecanismo, e agora está sendo procurado pela oposição com uma proposta inusitada para quem é "golpista": em vez de propor o impeachment de Lula, a oposição lhe oferece a possibilidade de um mandato de cinco anos em contrapartida ao fim da reeleição. E Lula seria o último presidente a poder se reeleger, com o que teria um mandato de nove anos, maior do que o que estava previsto quando se elegeu a primeira vez, e maior ainda do que o de seu maior adversário político, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O líder do PSDB, deputado Alberto Goldman, começa na próxima semana a sondar os partidos políticos, especialmente o PT, para que a proposta venha a ser aprovada por consenso. O ex-presidente Fernando Henrique já deu o sinal verde, dizendo-se em constrangimento com o fim da reeleição aprovada em seu governo. Embora seja tentador ultrapassar Fernando Henrique, Lula, que já esteve na posição de virtual eleito para um segundo mandato, hoje claramente teme ser derrotado no próximo ano.


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