O GLOBO
Pelas primeiras reações oficiais, ninguém parece muito preocupado com o que aconteceu na Venezuela. Nem mesmo em Washington — o que é altamente preocupante.
Houve no país uma eleição parlamentar original: a oposição, porque ia perder, não participou. O presidente Hugo Chávez agradeceu, desprezou o baixíssimo comparecimento às urnas e se prepara, rindo à toa, para governar sem oposição parlamentar alguma. Está na situação original de dispensar um golpe de Estado para se transformar em virtual ditador. Golpes são dados para eliminar a oposição, e no seu caso ela já fez o favor de ir sozinha para casa.
Observadores da União Européia e da Organização dos Estados Americanos atestaram a lisura do pleito, mas pediram mudanças no sistema eleitoral para evitar que se repita o espetacular comparecimento às urnas de 25% do eleitorado. Sugeriram uma reforma que garanta a representação das minorias e a criação de um "conselho eleitoral nacional". Segundo um porta-voz da OEA, o órgão precisará "ter a confiança de todos os setores da sociedade". Belas palavras, pobres esperanças: como se conseguiria isso, se o órgão seria criado por um Legislativo onde Chávez tem exatamente cem por cento dos votos?
A biografia do presidente inclui uma tentativa de chegar ao poder por golpe militar, o que, pelos precedentes no continente, faz supor uma mentalidade de direita. Mas ele, depois de pegar um tempinho de cadeia, acabou chegando ao poder com perfil de líder populista de esquerda, apoiado por Cuba e detestado por Washington.
Seja qual for a sua verdadeira face, nunca se deu bem com o sistema representativo. Seu método preferido de governar é o plebiscitário — no pior sentido. Plebiscitos podem ser instrumentos democráticos legítimos, quando usados em circunstâncias específicas, por motivos especiais. E são antidemocráticos quando o chefe do governo os emprega sistematicamente para atropelar e desmoralizar a representação popular.
Chávez preferiu o segundo tipo. Nos próximos movimentos, sequer precisará driblar partidos e políticos adversários: eles preferiram sair de campo. Perderiam as eleições com certeza, mas sua decisão tem odor de suicídio. Humilhar o voto pode ferir de morte o sistema representativo — e a democracia vai para o espaço.
Por que o governo brasileiro não se manifestou, de forma clara e enfática, sobre esse fenômeno inédito, com óbvias implicações sobre o equilíbrio de forças no continente? O Planalto mantém relações bastante cordiais com Caracas e deveria ter algo a dizer. Seria "parabéns"? Ou "olha lá o que você está arrumando, Chávez"? É bom lembrar que a Venezuela está se juntando ao Mercosul, que inclui em suas normas a chamada "cláusula democrática". Ou seja, não há vagas para regimes autoritários no nosso mercado comum.
O governo brasileiro deveria dizer o que pensa a respeito. E não seria boa idéia algo como "não temos nada com isso". Porque temos. Quanto mais não seja, por morarmos todos na mesma rua.