Quando surgiram as primeiras críticas petistas à política econômica, em 2003, foi dito, em tom de ironia, que o governo Lula ostentava o ineditismo de carregar dentro de si uma oposição exclusiva. O que parecia uma demonstração de esquizofrenia política, refletia, na verdade, o caráter de frente que sempre teve o PT, legenda em que se abrigavam, e ainda se abrigam, várias correntes de esquerda. Há até quem tenha considerado a "Carta ao Povo Brasileiro" um artifício de campanha. Não era para ser cumprida; serviria apenas para atrair votos. Um estelionato eleitoral.
Os conflitos internos em torno da inevitável reforma da previdência do funcionalismo público — que ainda precisa ser completada — resultaram na expulsão de alguns parlamentares. Mas o ranço oposicionista do PT contra Palocci e equipe se manteve, por ter raízes ideológicas. Portanto, incólumes a argumentos racionais.
A última demonstração de rebeldia, dada na semana passada, tem outras características, mais graves. Agora, além de haver um esquema no governo mais ativo e militante contra a austeridade fiscal, um dos pilares da política econômica, o PT parece ver nesse combate uma forma de lavar a imagem, bastante manchada pelos mensalões e valeriodutos. Tudo parece estar condicionado ao calendário das eleições de 2006, que se apresentam pouco promissoras para o partido e Lula. O ambiente estimula atitudes tresloucadas, como essa de se investir contra o superávit primário, âncora de qualquer programa sério destinado a equacionar o problema da dívida interna.
É sintomático que o partido resolva atacar uma das poucas políticas vitoriosas da gestão Lula no momento em que movimentos ditos sociais redigem textos de crítica ao governo. O PT estaria tentando se desconectar do seu dramático presente de estrela cadente — atingido por grave escândalo de corrupção político, financeiro e eleitoral — mesmo ao custo de bombardear o único terreno firme em que pode se assentar Luiz Inácio Lula da Silva.
Ontem, o Ministério da Fazenda anunciou que antecipará o pagamento de tudo que o país ainda deve ao Fundo Monetário Internacional, US$ 15,5 bilhões. Escapa aos petistas o fato de uma política "neoliberal" permitir a realização do sonho da esquerda de manter distância do FMI.