Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, dezembro 15, 2005

AUGUSTO NUNES Surtos de amnésia no centro do poder

JB



O deputado Delfim Neto garante que o poder é afrodisíaco. É também amnésico. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esqueceu parte do que escreveu. Lula, que não escreve (nem lê), só pode esquecer o que disse. Cada vez mais freqüentes, os surtos de amnésia atingiram no começo deste mês 9 graus na Escala Delúbio.

Assombrado por fantasmas golpistas, esqueceu o que disse nos tempos de chefe da oposição a todos os governos. "Quando eu era deputado do PT, também fazia crítica", admitiu com voz suave. "Mas nunca fiz declarações agressivas, nem ataques pessoais ao presidente da República". Algum fenômeno o fez acreditar que o "Lulinha Paz e Amor", esperta invenção do publicitário Duda Mendonça, sempre existiu.

Esqueceu que foi ele quem recomendou a expulsão dos petistas que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Como faria com Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique, cobriu de insultos o agora amigo de infância José Sarney. Em 6 de setembro de 1987, por exemplo, o então presidente foi um dos alvos preferenciais do Discurso de Aracaju, obra-prima do campeão do improviso. Abaixo são reproduzidos - sem correções - sete dos melhores momentos, aos quais se seguem, entre parênteses, comentários do colunista:

1) "Somos apenas cem ou cento e poucos deputados comprometidos com a luta desse povo e tem quatrocentos e cinqüenta representantes do poder econômico". (Então, eram mais de 300 os picaretas que em 2002 se juntariam a pilantras do PT na "base aliada").

2) "Nós hoje somos um país que morre um trabalhador a cada quarenta minutos por acidente de trabalho. Nós hoje somos um país com treze milhões e meio de pessoas comendo menas comida, (...), porque não tem vergonha na cara daqueles que governam esse país nos últimos vinte anos". (Vinte anos? Quer dizer que tudo andou nos trilhos até 1967, incluído o golpe militar ocorrido três anos antes).

3) "Nós somos um país aonde a história é contada pela Rede Globo de Televisão porque o senhor Roberto Marinho não faz outra coisa a não ser mentir para o povo". (Lula concedeu à Globo a primeira entrevista depois de eleito).

4) "Apesar de Tiradentes ter morrido pela independência, a nossa independência ainda não chegou aqui porque ficou na conta dos banqueiros internacionais. O governo brasileiro, ele vai ter que escolher: ou ele enche o rabo dos banqueiros de dinheiro do nosso sangue, do nosso suor, e se ele fizer essa opção ele vai levar a classe trabalhadora a continuar passando fome". (Em 2005, os bancos juntaram os maiores lucros da história. Só ficou no prejuízo o Banco Popular).

5) "Antigamente se dizia que o Ademar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Pois bem: Ademar e Maluf poderiam ser ladrão, mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da nova República, perto dos assaltos que se faz". (Viraram todos aprendizes depois da roubalheira descoberta nos últimos meses)..

6) "Nós não queremos eleição direta para tirar o sicrano e botar beltrano. Nós queremos eleições direta pra tirar a burguesia e colocar a classe trabalhadora pra governar esse país". (Sem comentário).

7) "O presidente ao invés de fazer açude, de fazer cacimba, ao invés de fazer poço artesiano ou fazer irrigação no Nordeste, vai gastar dois bilhões e meio de dólares pra construir uma ferrovia, Norte-Sul, ligando a casa dele, no Maranhão, à casa dele em Brasília". (Lula retomou as obras da ferrovia e promete concluí-las em 2006).

Amnésico seletivo, o presidente vive golpe ando a coerência, a lógica, a sensatez. Golpeia a própria história. Golpismo é coisa de Lula.


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