Sob o fogo inimigo dos aliados, Lula não demora será sustentado pela oposição
Da mesma forma como os queixosos de hoje calaram-se quando lhes interessou subir ao pódio do Planalto junto com ele, mesmo ao custo da negação aos princípios, se o presidente der a volta por cima, as mangas que agora se põem de fora se recolherão sem cerimônia ao obsequioso e reverente silêncio ante a expectativa de mais quatro anos de poder.
O problema de Lula no presente momento não é como ganhar a eleição, mas como levar a termo seu atual mandato. E, nisso, tem sofrido golpes. Não da oposição, cuja obsessão - senão unânime, pelo menos majoritária - tem sido posar de "responsável" e cuidar para que a casa não caia, a fim de não estragar seus planos de voltar o quanto antes ao governo federal.
As contusões presidenciais são produto, primeiro, dos atos e palavras do personagem principal, "difícil", como aponta José Dirceu; ao segundo escalão da tropa de golpeadores - para não dizer golpistas - até então integrada por petistas e companhia, junta-se o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan.
Ganha destaque no grupo não pelas críticas que fez à taxa de juros e ao porcentual do superávit primário; nestas, de tão corriqueiras, ninguém presta mais atenção. Furlan ganhou patente de oficial na tropa pelo diagnóstico que fez na reunião da Organização Mundial do Comércio: "O governo não faz sinalizações, não traça cenários, não tem objetivos nem estabelece meios para atingi-los."
Ou seja, não governa.
Até então, Furlan havia sido um crítico pontual como tantos outros. Mas agora formulou um conceito que define o governo como um todo, fez uma avaliação avassaladora e não deixou margem para recuos.
Tudo bem que a oposição diga isso todos os dias. Tudo bem que seja verdade, mas quando quem emite essa opinião é um ministro de uma das áreas mais bem-sucedidas do governo, o setor de exportações, trata-se da chancela oficial à constatação de que a crise não é só política.
É, sobretudo, uma crise de gestão das políticas governamentais e é também uma crise de autoridade. E, no caso de Furlan, poder-se-ia também falar em crise de identidade, pois sendo o governo a nau sem rumo que aponta, ele se inclui como um dos navegantes à deriva e não sente desconforto com a situação.
Ao silenciar a respeito, o presidente da República torna verdadeira uma de duas hipóteses: ou concorda, ou não está na posse plena de suas faculdades governamentais para reagir.
O ministro tem todo o direito, senão o dever, de dizer o que pensa. Mas, seria de se esperar que seu chefe o contraditasse no sentido de fazer ver à Nação que há comando.
Lula tem facilidade para construir uma realidade paralela quando o assunto são as denúncias de corrupção. Diz, convicto, que nada houve, não cooptou parlamentares sob o compromisso de lhes financiar as campanhas, seus auxiliares não têm culpa no cartório, ninguém pecou, ninguém prevaricou, no máximo foi a oposição quem conspirou.
Seria de esperar que o presidente exibisse a mesma habilidade para desmontar o retrato de sua administração exibido em Hong Kong pelo ministro Luiz Fernando Furlan. Se não o faz é porque não quer, não pode ou não sabe que argumentos usar para desmentir o ministro.
Casa de ferreiro
Adeptos da tese de que "vontade política" resolve qualquer coisa, os políticos não aplicam a lição em casa. Não conseguem decidir se deve haver convocação extraordinária do Congresso no recesso. Alguns temem o esfriamento da crise, outros sua manutenção em fogo quente, a maioria anseia pelos R$ 25 mil (no mínimo) extras per capita e todos têm pânico da repercussão negativa.
O dado mais importante - se a convocação é real e objetivamente necessária - não entra no balanço do custo-benefício. Se entrasse, bastava decidir por aí, sem embromação.
Planilha
O pessoal dos números realmente não acerta uma quando o assunto é política. Sua reverendíssima, o Mercado, no início da crise tirava por menos seus efeitos, chegando a desconsiderar as denúncias de Roberto Jefferson porque o então deputado não exibia "provas".
Agora, chega a ser constrangedor ver na televisão os meninos das finanças dissertarem a respeito do "risco eleitoral" em suas análises sobre os "perigos" à economia inerentes à realização de eleições no próximo ano.
De fato, o embate político confunde. Sem eleição nem o exercício do contraditório fica mais fácil enxergar o cenário a uma distância superior a um palmo adiante do nariz. Principalmente para quem só leva em conta as contas.