Entrevista:O Estado inteligente

domingo, dezembro 11, 2005

AUGUSTO NUNES Vigarista atravessa o caminho do vice

jb


José Alencar tem a estampa do bonachão vocacional, do avô irremediavelmente incapaz de repreender o mais rebelde dos netos. A aparência é enganosa. É uma ilusão de ótica favorecida pela fala mansa de mineiro. Se não fosse voluntarioso, jamais teria chegado ao Senado e à Vice-Presidência da República. Se não soubesse mandar, não teria erigido a Coteminas, uma das maiores empresas brasileiras no ramo da tecelagem.

Além de esperto, Alencar é mineiramente desconfiado. Mesmo absorvido pelo acúmulo de dois gabinetes - o do vice-presidente e o do ministro da Defesa -, mantém sob estreita vigilância os negócios da Coteminas, formalmente dirigida pelo filho Josué.

Certamente ouviu do herdeiro que, em maio deste ano, o PT pagara parte da dívida contraída em setembro de 2004, quando encomendou 2,75 milhões de camisetas para a eleição municipal.

Com os encargos provocados por atrasos, o débito chegara a R$ 13 milhões. Cada camiseta, portanto, acabou custando R$ 4,72. Ponto para a Coteminas, como avisa a mensagem enviada à coluna pelo leitor Paulo Portinho, que há poucos dias comprou no Rio duas camisetas da empresa.

"Paguei nas Lojas Americanas R$ 9,90, menos de R$ 5,00 cada", relata. "Será que, comprando direto da fábrica, o PT não conseguiria condições melhores que 10% ou 15% de desconto, sobre o preço do distribuidor?" Boa pergunta, feita por um cidadão apegado a princípios éticos.

Qualquer consumidor conseguiria abatimentos razoáveis se adquirisse dúzias de camisetas. O partido do presidente comprou da empresa do vice mais de 2 milhões - e praticamente sem desconto. É tão estranho quanto o método utilizado para o pagamento da primeira parcela.

Uma funcionária do PT em São Paulo apareceu na sede da Coteminas com R$ 1 milhão em dinheiro vivo. Se usou só cédulas de R$ 100, foram 10 mil. Um caipira de Pirapora não viajaria com tamanha bolada a tiracolo. É improvável que uma companheira acionada por Delúbio Soares tenha corrido tal risco. A turma das finanças sabia que, no mundo do caixa 2, predomina o dinheiro em espécie. Mas no ano passado já eram dispensáveis incursões de risco a Belo Horizonte. O maleiro Valério estava lá para isso.

"Minha empresa tem um caixa só", repetiu Alencar na semana passada. Uma coisa é a Coteminas. Outra é o PT. Delúbio pediu a Valério que providenciasse a montanha de reais. A encarregada do pagamento pegou o dinheiro já em Minas. O vigarista e o vice acabaram por encontrar-se no caminho paralelo à estrada principal. É uma trilha traiçoeira.

Faltam recibos. E ainda estão faltando R$ 12 milhões.

Interessado em saber por que o presidente se irritara com declarações do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, o Cabôco ouviu atentamente a explicação produzida por Lula: "Eu não posso pensar uma coisa e sair dizendo. Eu até posso. Mas nenhum ministro pode pensar uma coisa e sair falando", complicou o presidente. O Cabôco acha que, ao tentar explicar-se, Lula pensou uma coisa e saiu logo dizendo.

O Perguntadô quer saber: o presidente da República não pode ou até pode?

A velha senhora não está só

Iolanda Figueiral, a brasileira de 79 anos condenada a morrer na cadeia por um juiz durão, já não está só. É o que informa a mensagem enviada à coluna por Maria Lúcia Karam, juíza de Direito aposentada. "A organização não-governamental Encod (European Coalition for Just and Effective Drug Policies) já enviou carta a autoridades brasileiras, a propósito da estarrecedora, insensível e injusta condenação de Iolanda", conta Maria Lúcia.

"No site da Encod (http://www.encod.org) há um link para o texto da carta (em inglês e em português) à disposição de quem quiser subscrevê-la e enviá-la àquelas autoridades". A juíza também enviou o texto produzido pelo Movimento da Magistratura Fluminense pela Democracia - MMFD. Trata-se de uma vigorosa resposta ao corporativismo.

Sete juízes de Campinas assinaram uma carta para solidarizar-se com o carrasco de Iolanda, vítima de câncer em estado terminal. Segue-se a essência do manifesto fluminense: "Ao contrário do que supõem tais juízes, o Poder Judiciário não é mero intérprete e cumpridor da lei. É, antes de tudo, garantidor dos direitos fundamentais de cada indivíduo". Sucedem-se bem-vindas lições de sensatez.

"O Judiciário só atua legitimamente quando submete a aplicação de qualquer lei à sua conformidade com as declarações universais de direitos e a Constituição. Ao contrário do que supõem os juízes de Campinas, a lei dos crimes "hediondos" não é uniformemente interpretada pela jurisprudência". Sobretudo o dispositivo que impede a liberdade provisória e a possibilidade de recorrer em liberdade.

A interpretação é manifestamente inconstitucional, reiteram os magistrados do Rio. "Viola princípios proclamados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e na Constituição. A inconstitucionalidade de dispositivos legais deste teor, aliás, já foi afirmada em votos de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal que se pronunciaram sobre o tema."

O fecho é irretocável. "Contrariar direitos fundamentais a ponto de insensivelmente negar a liberdade a uma senhora de 79 anos, sofrendo de câncer em estado terminal, pesando menos de 40 quilos, é desconhecer o que seja fazer justiça. É desconhecer a função do Poder Judiciário."

Iolanda pode sonhar. Ainda há juízes no Brasil.

Enigma campeão

O ex-deputado José Dirceu levou a taça com uma frase enigmática:

"Lula é um personagem difícil".

No Aurélio, "difícil" tem muitos significados. Por exemplo: "penoso", "triste", "delicado", "embaraçoso", "complicado", "obscuro", "intricado", "árduo", "áspero", "confuso". Como Dirceu não é de colocar pingos nos is, e a palavra que usou tem três, o leitor se sinta à vontade para eleger a preferida.

O jogo da eficiência

Se a velha esquerda brasileira não se unia nem na cadeia, os responsáveis pelo destino do Rio não se juntam sequer na hora mais dramática. A violência atrevida do narcotráfico, por exemplo, ainda parece insuficiente para induzir o governo estadual e a prefeitura a pensarem mais no povo e menos em urnas.

Essa mediocridade histórica ronda agora os Jogos Pan-Americanos de 2007. Parece que há tempo de sobra. Não resta um único dia a desperdiçar. O governo e a prefeitura devem unir-se sem fricotes, garantir o apoio do Planalto e cumprir o cronograma com competência. Os Jogos de 2007 mostrarão se o Rio ainda é viável ou já não tem jeito. Nesta hipótese, teremos a prevalência da inépcia.

Milhagem perigosa

No fim dos anos 90, o embaixador Júlio César Gomes dos Santos, chefe do Cerimonial do governo Fernando Henrique, viajou para o México na carona do avião do dono da empresa Líder. O PT enfureceu-se com o assassinato da ética. Sob intensa pressão, o diplomata perdeu o posto, sujeitou-se a uma dramática inquirição no Senado. Só em 2005 o desterro terminou: Júlio César foi designado embaixador na Colômbia.

Nesta semana, confirmou-se que o ministro Antonio Palocci colecionou viagens gratuitas no jatinho do amigo José Roberto Conalghi, parceiro de suspeitíssimas empresas estrangeiras e dono do avião envolvido no caso dos dólares de Cuba. O PT está calado. Companheiros podem.

VIVA DODA!

Foto AFP

Durante a festa, Doda repetiu a Athina: "Você é tudo para mim"

"Ser brasileiro e fazer sucesso é muito perigoso", advertiu Tom Jobim. Não no espaço desta coluna, que cumprimenta efusivamente Álvaro Affonso de Miranda Neto. O casamento com Athina Onassis fez do cavaleiro Doda o Noivo da Década.

Qualquer estrangeiro que conquistasse a mais cobiçada herdeira do mundo ganharia espaço nobre nos jornais. Como o craque é brasileiro, os sempre sóbrios editores remeteram a história às colunas sociais para evitar a grande manchete: VIVA DODA!

Triunfo da honradez

O fotógrafo Samuel Iavelberg foi indenizado pela comissão que cuida dos casos de mortos e desaparecidos políticos. Como outros dois irmãos de Iara Iavelberg, assassinada por agentes da ditadura militar, Samuel recebeu R$ 41.530. Repassou R$ 40 mil à organização População de Rua, coordenada pelo padre Júlio Lancellotti. O restante foi usado na quitação de despesas ligadas ao caso.

O fotógrafo não é um homem rico. Mas não pensava em dinheiro quando decidiu processar o governo. Queria que o Estado renunciasse à tese do "suicídio" e admitisse ter sido responsável pela morte de Iara. A indenização seria a vitória da verdade. A decisão de doá-la consumou também o triunfo da honradez.

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