Entrevista:O Estado inteligente

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sexta-feira, setembro 17, 2010

Cresce pressão para governo conter a valorização do real Valor Econômico -Editorial

17/09/2010



O exemplo do Japão jogou mais lenha na fogueira da discussão a respeito da valorização do real. Pela primeira vez em seis anos, o governo japonês interveio fortemente no câmbio nesta semana. A venda de 1 trilhão de ienes fez a moeda cair 3%, depois de atingir a maior cotação em 15 anos.

A ação unilateral recebeu críticas generalizadas dos Estados Unidos e da União Europeia porque enfraquece as tentativas de se pressionar a China para abandonar a política de câmbio deprimido. A realidade é que um câmbio depreciado turbina as exportações e ajuda na recuperação econômica.

A desvalorização do dólar, em consequência do enfraquecimento da economia americana e dos juros perto do zero, é uma dificuldade extra.

Mercados emergentes cuja economia estão em melhor situação, que têm câmbio flutuante, juros elevados, como o Brasil, estão sendo particularmente afetados porque recebem um fluxo intenso de capital, o que acentua a apreciação cambial.

Mas o arsenal de instrumentos do Brasil para enfrentar o problema é limitado, dentro das regras atuais de câmbio flutuante, com mínimas intervenções. A principal delas é a compra da moeda americana. Desde maio de 2009, o Banco Central (BC) compra dólares no mercado com o objetivo oficial de apenas absorver os excedentes, sem interferir na cotação. Foram enxugados US$ 24,038 bilhões no ano passado; e US$ 19,42 bilhões neste ano até 10 de setembro.

A atuação do BC vem mantendo o real praticamente estabilizado, embora em níveis históricos elevados. Em setembro, porém, o início da venda de ações da Petrobras fez o real subir 2,4% até agora, com a expectativa de grande ingresso de capital externo para a compra dos papéis. Nos dez primeiros dias de setembro, o BC chegou a realizar dois leilões diários de compra de dólares para segurar a cotação da moeda americana e foram adquiridos US$ 815 milhões.

O resultado foi pífio. Calcula-se que 20% a 30% dos R$ 128 bilhões obtidos com a venda das ações virão do exterior, o que significa a entrada de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões.

Na contramão, o Tesouro foi ao mercado internacional e captou US$ 550 milhões com a venda de títulos. Mas isso é até pouco quando comparado com o fluxo de recursos de outras fontes. Nos dez primeiros dias de setembro, o saldo do fluxo cambial ficou positivo em US$ 2,114 bilhões. O número vai aumentar consideravelmente nos próximos dias com o início da reservas de ações da Petrobras.

A política de compra de dólares tem contraindicações. Uma delas é o custo de esterilizar os reais injetados na economia. O enxugamento do dinheiro custa o equivalente à taxa básica Selic, atualmente em 10,75%, bem mais do que os juros obtidos na aplicação das reservas no mercado internacional.

Outro problema é incentivar os bancos que estão apostando na valorização do real. As posições vendidas em dólar dos bancos estão ao redor de US$ 13 bilhões, quase seis vezes mais do que os US$ 2,983 bilhões de abril, quando os bancos começaram a se posicionar contra o BC. Há ainda posições vendidas no mercado futuro ao redor de US$ 12 bilhões.

Por isso, foi fugaz o impacto no mercado das declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirmou que o governo tem "cacife" para comprar dólares. Mantega disse que o governo tem condições de neutralizar o impacto da capitalização da Petrobras no mercado de câmbio com os R$ 16 bilhões que o Fundo Soberano possui em carteira e também com recursos ilimitados provenientes do Tesouro. Mais simples, porém, será fechar o câmbio da venda das ações da Petrobras fora do mercado. É o que o BC costuma fazer com grandes operações, como a da venda dos papéis do Santander em 2009. Essas operações fora de mercado não afetam a cotação e os recursos vão diretamente para as reservas.

A Fazenda não esconde que estuda outras alternativas como as operações de "swap" reverso, que equivalem à compra de dólares no mercado futuro. Outra alternativa seria inibir as posições vendidas de câmbio dos bancos, possivelmente com maiores exigências de capital para bancar esse tipo de negócio.

A realidade é que o governo vem usando o arsenal de medidas para conter o câmbio com parcimônia, quando comparado com as práticas internacionais. Ao menos até o fechamento da capitalização da Petrobras e as eleições, nada drástico deverá ocorrer.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Pré-sal trouxe até agora muito calor e pouca luz



Editorial
Valor Econômico
27/8/2008

A exploração do novo mar de petróleo encontrado em camadas ultraprofundas, o pré-sal, tem importância e repercussões históricas para o Brasil. O país deverá se tornar um grande exportador no médio prazo, podendo, com isso, tornar permanente os saldos positivos na balança comercial. As receitas da venda de petróleo podem tanto deslanchar um processo inflacionário severo quanto destruir boa parte da indústria pela valorização cambial, se sua administração for inábil. Haverá mais recursos para um país até hoje carente de capitais, que poderá utilizá-los para promover o desenvolvimento sustentável.

Há questões de enorme complexidade e a primeira delas é extrair petróleo do pré-sal, uma façanha tecnológica que a Petrobras está pronta para encarar, e como obter a imensa quantidade de dinheiro para isso. Como se já não fosse difícil discutir regimes de exploração, a comissão interministerial em nada tem ajudado a compreensão do que está em jogo ao divulgar pedaços de discussões inconclusas, que multiplicam desentendimentos ao léu.

A primeira providência necessária é evitar que natural indefinição sobre uma possibilidade nova e instigante - petróleo de sobra no Brasil - contribua para desorganizar ou retardar a produção já "contratada". Isto quer dizer que o governo deveria reafirmar o óbvio antes de tudo - que não vai mudar contratos já assinados. Desde sua posse, o presidente Lula fez isso em todos os setores de sua administração e não há indícios de que mudará de conduta. Sem alterar a lei, o governo hoje pode, diante das novas circunstâncias, aumentar sua arrecadação nessas áreas por meio de um aumento na chamada participação especial.

A segunda ação importante é definir a "unitização" dos campos já licitados, como o de Tupi, onde áreas em posse da Petrobras e empresas associadas se interpenetram com outras que não o foram. Um acordo entre União e oito empresas tem de ser alcançado até dezembro de 2009, quando se prevê a estréia do projeto piloto de Tupi, que deve produzir 100 mil barris diários (Valor, 22 de agosto). Já há áreas unitizadas no Brasil e é bom que a discussão neste caso seja apenas técnica, sem ruídos políticos desnecessários.

O quadro ficará mais claro quando o governo vier a público dizer qual modelo pretende seguir. Apesar do seu gosto por frases de efeito, o presidente Lula não tomou nenhuma decisão a respeito. Há, como sempre, divergências no governo e elas estão aparecendo na imprensa como se fossem quase posições oficiais. A mais infeliz veio do ministro Edison Lobão: a hipótese de desapropriação de lotes já licitados.

Com o fim do risco exploratório nos novos campos, o jogo mudou radicalmente e o sistema de concessão provavelmente não será aplicado no pré-sal, e sim o de partilha, mais amigável para as empresas, ou o de prestação de serviços, mais hostil. Essa escolha é precedida por outra, estratégica. O governo quer comandar o ritmo de extração, manter reservas estratégicas, definir a quantidade exportada e seu mix, elevando a parcela refinada, mais rentável. É uma decisão de Estado, e não de mercado, que ao que tudo indica terá de passar pelo Congresso, onde tudo será debatido às claras com a sociedade.

Para controlar dessa maneira a exploração, a União terá de estar representada diretamente e há inconvenientes em usar a Petrobras com essa finalidade. A Petrobras tem de defender o interesse imediato de seus acionistas privados, que são a maioria - mas não detêm o controle - e que nem sempre coincidem com os interesses do seu acionista majoritário, como ocorre com freqüência em empresas abertas. É uma tolice, porém, acreditar que a Petrobras terá papel secundário na exploração do pré-sal. Ela está na vanguarda da exploração em águas profundas e comandará a extração e o refino no país.

Uma fração do governo é favorável a uma estatal enxuta para gerir recursos do pré-sal. A rigor o próprio Tesouro ou um apêndice no Ministério da Energia poderiam fazer isso. Mas o PMDB já sonha com a estatal bilionária para seus apadrinhados. Há acenos de que esta estatal será "enxuta" , o que dificilmente ocorrerá se ela for entregue a partidos políticos. As agências reguladoras foram semidestruídas com esse loteamento. Não se trata de afastar políticos das decisões, mas de que, uma vez tomada decisões políticas no Congresso, a administração seja técnica. Não é preciso uma estatal para isso.

quarta-feira, abril 30, 2008

Clipping Valor Econômico

NEGOCIAÇÃO DE REAJUSTES É INTENSA NAS INDÚSTRIAS
Apagão de talentos
Especial
Construção civil vive momento de expansão
Novo gasoduto deverá ficar pronto ainda este ano
União decide investir R$ 1 bi para garantir energia no AM
Brasil
NEGOCIAÇÃO DE REAJUSTES É INTENSA NAS INDÚSTRIAS
'Efeito calendário' faz atividade cair 4,3% na indústria de SP
Acordo mostra "estratégia agressiva"
BNDES suspende operação com Marisa e prefeitura
Cade deveria analisar fusões antes que fossem feitas, diz especialista dos EUA
Curta - Balanço de Furnas
Desembolsos do BNDES crescem 45% no trimestre
EUA analisam respostas do Brasil
Governo adia reajuste de combustíveis
Indústria desconhecia propostas de reforma
Preços têm maior variação em 40 meses
Reajuste de servidor sai este ano
Sem "feijãozinho", inflação seria de 3%, diz Mantega
Setor têxtil busca aproximação com os EUA
Superávit do governo central cresce 65%
Vale faz parceria com Columbia para criar centro de pesquisa
Colunas
Brasil - Quem representa o povo?
Política - Sonho de verão ou jogada de risco
Política
Aliados preparam blindagem de Dilma
Câmara aprova MP que compensa perda de arrecadação da CPMF
Curtas - Investigação
Governistas pedem correção da tabela do IR a Mantega
Guerra interna contamina decisão petista
Impasse pode resultar em apoio informal
PDT acautela-se em relação a denúncias
PSB recomenda aliança em BH
Roteiro adiado
Economia
Bernardo defende o BC pela alta da Selic
Apagão de talentos
Opinião
Do encadeamento ao transbordamento
Não se governa sem PMDB, e menos ainda com ele
Oportunidade para mudanças
Reconstruindo Malthus
Internacional
Argentina encara o frio com oferta de energia no limite
Blecaute na Venezuela atinge metade do país
Brasil emprestará eletricidade durante o inverno

terça-feira, novembro 13, 2007

Novo campo de petróleo muda a equação energética



Editorial
Valor Econômico
13/11/2007

Se as grandes expectativas criadas pelo novo campo de petróleo na Bacia de Santos se confirmarem, o jogo energético no continente terá mudanças substanciais. A grande dependência brasileira do fornecimento de gás natural boliviano será muito atenuada, assim como será menos intensa a atração que o império de reservas petrolífera confere a Hugo Chávez, presidente da Venezuela.

Por indicações preliminares, o potencial do campo de Tupi pode aumentar em 60% as reservas conhecidas, para 20 milhões de barris. As previsões da direção da Petrobras apontam, no futuro, para reservas de até 70 bilhões de barris. É possível, desde que esse potencial se confirme de fato, que o Brasil se torne um exportador de petróleo, depois de ter praticamente conseguido a auto-suficiência. O novo campo é bem-vindo especialmente porque a era do petróleo barato parece ter ficado para trás - o Brasil economizará dólares nas importações que forem substituídas, e ganhará outros com vendas externas crescentes. Para o governo Lula, que começava a entrar em corner com a interrupção do fornecimento de gás para indústrias no Rio e São Paulo, nada melhor poderia ter acontecido.

Para quem olha a história, sem a mania dos marcos inaugurais, fica claro que a identificação de novos campos em águas ultra-profundas é uma retumbante vitória tecnológica da Petrobras e resultado de um patrimônio de conhecimentos acumulado em décadas. A capitalização política feita pelo governo Lula, como de resto faria qualquer outro governo, rendeu-lhe uma saraivada de críticas e contestações que obscurecem a magnitude do que o país está prestes a conquistar.

É certo que capitais imensos terão de ser mobilizados para extrair o petróleo imerso em camadas ultra-profundas. É preciso considerar que o próprio potencial das reservas eleva o cacife da estatal em levantar recursos a custos menores em um mercado internacional onde ainda predomina um excesso de liquidez, embora não se saiba até quando ele irá durar. A Petrobras não está sozinha em alguns dos campos promissores, para os quais contará com auxílio de empresas multinacionais. Além disso, capacidade de investimento não foi um problema para a Petrobras até agora e provavelmente continuará não sendo.

A Petrobras tem se notabilizado pela exploração do petróleo em águas profundas. A maior profundidade do campo de Tupi coloca desafios adicionais de envergadura para os técnicos da companhia, assim como o foram os que irromperam quando do início da exploração do petróleo na plataforma continental. É certo apostar em um tempo maior para a extração e em custos mais elevados, mas parece pessimista demais a dúvida sobre se este novo obstáculo será vencido ou não. O passado da companhia traz esperanças bastante razoáveis de sucesso.

Obviamente, o petróleo a US$ 100 o barril viabiliza campos de custo maior, mas isto é o que o mundo todo está fazendo, com a conseqüente escassez de mão-de-obra e principalmente de equipamentos. Há atrasos na fabricação e fornecimento desses equipamentos, uma condição, porém, que afeta igualmente as companhias de petróleo mundo afora.

Tudo somado, e se tudo der certo, o Brasil consegue driblar o destino de ter de negociar gás com países politicamente conturbados como a Bolívia, que deverá se tornar um fornecedor complementar. Mais petróleo e gás internos significam ainda a necessidade de menos mesuras ante Chávez.

A existência do novo campo traz em si a possibilidade de um reforço da "porção estatal" da Petrobras. A abertura do mercado do petróleo foi feita pela metade - ou menos que isso - e o crescimento das reservas com Tupi leva mais água no moinho da estatização. O governo Lula já pensa em usar o modelo "boliviano" para explorações privadas em andamento, excetuando-se áreas de risco, apropriando-se de parte significativa da receita dos empreendimentos - 82% no caso da Bolívia - segundo a "Folha de S. Paulo" (10 de novembro). Ao colocar em xeque o marco regulatório já bastante favorável à Petrobras, o Brasil pode afugentar investidores externos nessa área, como o fez Morales. Surtos de euforia no tratamento destas questões podem ter conseqüências muito ruins para o país

segunda-feira, maio 07, 2007

A difícil decisão de quebrar patente de medicamentos






A decisão do governo brasileiro de quebrar a patente do remédio Efavirenz, anti-retroviral usado no tratamento da Aids, fabricado pelo laboratório Merck Sharp & Dohme, foi tomada após seis meses de negociações sem que se conseguisse chegar a um entendimento, e dentro dos limites das regras internacionais relativas aos direitos da propriedade intelectual da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Desde novembro de 2006, informou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, foram realizadas nove reuniões entre governo brasileiro e a Merck para negociar uma redução de preço. O Brasil vinha pagando US$ 1,59 por comprimido, o laboratório chegou a concordar com US$ 1,10 e o governo reivindicava uma redução para US$ 0,65, mesmo preço praticado pela Merck na Tailândia (país que também quebrou a patente do medicamento). O Efavirenz é usado hoje por cerca de 75 mil pacientes de Aids na rede pública do país, a um custo de US$ 43 milhões por ano.

Esta foi a primeira vez que o governo brasileiro optou pelo licenciamento compulsório de um medicamento, embora já tivesse ameaçado, tanto em 2001 quanto em 2003, a quebrar as patentes de outros anti-retrovirais produzidos pelos laboratórios Roche e Abbott. Nestes casos, porém, as empresas reduziram suficientemente o preço de venda ao governo, foi possível um acordo e a patente foi mantida.

A proposta final da Merck foi rejeitada pelo Ministério da Saúde que, diante do impasse prolongado, enviou ao gabinete do presidente Lula, na tarde de quinta feira, a alternativa do licenciamento compulsório do remédio, cujo genérico será importado da Índia (podendo ser também produzido no Brasil). Em solenidade no Palácio do Planalto, na sexta-feira, o ato foi assinado por Lula.

O programa brasileiro de Aids tornou-se uma vítima do seu próprio sucesso. O número de infectados beneficiados pelo tratamento não pára de crescer. Atualmente os pacientes têm sobrevida maior, a resistência ao vírus aumentou ao longo do tempo e novas drogas foram surgindo. Estas, hoje, são mais potentes, trazem menos efeitos colaterais, mas custam caro e são protegidas por patentes. O programa, com distribuição universal dos medicamentos, tem custo crescente. Em 2006 o orçamento para a compra dos medicamentos superou R$ 1 bilhão, colocando em risco a própria sustentabilidade do programa, ao mesmo tempo em que a cada ano cerca de 15 mil novos pacientes entram em tratamento na rede pública.

Segundo cálculos de organizações não-governamentais, cerca de 60% dos recursos são destinados à compra de apenas três medicamentos patenteados - o Kaletra, o Efavirenz e o Tenofovir. O Kaletra, fabricado pelo laboratório Abbott, foi objeto de acordo em 2005 e o custo da cápsula caiu de US$ 1,17 para US$ 0,63. Na ocasião o governo brasileiro comprometeu-se com o laboratório americano a não quebrar a patente do medicamento e a não alterar as cláusulas do contrato até 2011.

Ao governo, restavam três opções: quebrar patentes e baixar o custo de compra dos remédios, enfrentando o riscos de represálias comerciais; aumentar substancialmente os recursos fiscais destinados ao tratamento da Aids; ou reduzir o alcance do programa.

Como ameaça, a estratégia de quebrar patentes já havia forçado a reduções ocasionais dos preços. Posta em prática, tem o potencial de gerar conflitos comerciais indesejáveis. É crescente, porém, o consenso internacional de que os governos nacionais têm que ter alguma margem de manobra para a execução de políticas públicas de saúde. José Serra, quando ministro da Saúde, em 2001, brigou por isso na reunião de Doha (Qatar) da OMC, abrindo espaço para negociações sem retaliações em casos de emergência de saúde pública (como Aids, tuberculose e malária).

O argumento das empresas não é menos relevante: medidas como a quebra de patentes tornam pouco atrativos os investimentos em pesquisa e produção de medicamentos dessa natureza. Razão pela qual o governo só deve lançar mão do licenciamento compulsório de forma madura e quando todos os canais de negociação estiverem esgotados.

Se a negociação foi até o limite, e o governo estava convencido de que havia abuso de preço, não restava ao poder público outra saída.

quarta-feira, março 21, 2007

Sem soluções à vista para os apagões aéreos


Editorial
Valor Econômico
21/3/2007

Não é a primeira vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determina a apuração "imediata e rigorosa" de problemas que tornaram torturantes as viagens de avião no país, nem será a última. Há pelo menos seis meses panes sucessivas tiram do ar centenas de vôos e atrasam centenas de outros, sem que providências tenham sido tomadas e as falhas, corrigidas. Não se conhece um diagnóstico claro dos apagões aéreos, nem há um planejamento racional de ações para resolvê-los. O caos virou quase uma rotina.

A solução para a crise aérea pode demorar ainda mais, pois há várias denúncias de corrupção pousando no Tribunal de Contas da União que envolvem a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero). O apagão aéreo já se politizou no mau sentido da palavra. Busca-se menos uma saída para uma grave crise do que ganhar pontos desgastando adversários. A oposição, capitaneada pelos tucanos e pelo PFL, tenta criar uma CPI para o tema, após ter recolhido o número de assinaturas suficientes com a ajuda da própria base governista, desarticulada como sempre. Os governistas tentam impedir a criação e o conflito fatalmente irá parar no STF, como muitos outros. Mais uma vez há muito jogo para a platéia. A oposição bloqueou investidas para se apurar o acidente no metrô paulista e nas CPIs que tiveram peso político decisivo, como a dos Sanguessugas, dos Correios e dos Bingos, mostrou-se sempre disposta a retirar-se de campo assim que as denúncias apontavam também em sua direção.

Há vários fatos relacionados à pane dos aeroportos. A infra-estrutura tornou-se inadequada dado o crescimento da demanda por serviços - uma situação comum nos portos e nas estradas. A Infraero dispôs de verbas para reformas nos principais aeroportos do país, mas o TCU, em relatório preliminar, apontou irregularidades nas obras de 8 deles - como Congonhas e Guarulhos, dois dos maiores -, segundo "O Estado de S. Paulo" (20 de março). Há as suspeitas de sempre nos casos de fraudes: pagamentos antes da conclusão dos serviços, subcontratação das mesmas empresas para vários tipos de trabalho, escolha de companhias legalmente inabilitadas, uso de material inadequado em obras e suborno de fiscais. As denúncias precisam ser apuradas com determinação e rapidez, e é possível que uma CPI não seja o melhor caminho para isso. Mas como o governo está aparentemente empenhado em que nada seja investigado, a batalha da oposição é para criá-la e dar visibilidade às investigações, o que é tática legítima, desde que seja para valer.

A corrupção em terra, porém, não é suficiente para impedir os aviões de irem ao ar. As panes no sistema Cindacta-1 de Brasília repetem-se com freqüência assustadora. As chances de novas tragédias aumentaram com as falhas do sistema de tráfego aéreo e nenhuma explicação clara e convincente para isso foi apresentada até agora. Uns dizem que o sistema foi modernizado e que tem servidores de reserva confiáveis. Os controladores de vôo dizem que nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Corporativismo e burocracia se unem nesta hora para tentar provar que, se não existem causas, não existe o problema.

A esses até agora insondáveis mistérios da tecnologia soma-se a verdadeira explosão da demanda por transporte aéreo e o congestionamento dos principais aeroportos. A competição entre as empresas aéreas tornou acessíveis as passagens de avião, ampliou o número de usuários, mas a oferta não cresceu proporcionalmente. Até agora se sentem os efeitos da crise da Varig, cujos serviços não foram inteiramente repostos pelas empresas concorrentes. A prática do overbooking é constante e as companhias parecem ter se preparado para uma guerra de marketing pra a venda de passagens e menos - muito menos - para o atendimento aos clientes em situações de exceção. A percepção é de que os preços caíram, mas a perda de qualidade dos serviços oferecidos foi atroz.

Os prejuízos para a economia e para os clientes das empresas aéreas têm sido elevados. Se é preciso que uma CPI seja criada para que os responsáveis por um setor considerado de segurança nacional comecem a agir para atacar os apagões aéreos, que ela seja criada. Em países civilizados, bastariam seriedade, competência e dedicação.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

PT anuncia "reflexão" mas mantém tudo como antes


Editorial
Valor Econômico
26/1/2007

No dia 10 de fevereiro o PT completa 27 anos com uma reunião do Diretório Nacional em Salvador, Bahia, que deverá ser o "lançamento" do 3º Congresso Nacional do partido. As festividades, que incluem um almoço com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, são anunciadas no site da legenda como "o início a um profundo processo de reflexão sobre o Brasil, o socialismo e o futuro do próprio partido". E isso ocorre depois de o PT "dar a volta por cima, reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aumentar o número de governadores e ser a legenda mais votada para a Câmara dos Deputados", diz o site.

O evento acontecerá nove dias depois da eleição da mesa diretora da Câmara, onde um candidato petista, Arlindo Chinaglia (SP), terá disputado contra o deputado Aldo Rabelo (PCdoB-SP), da base parlamentar do governo e candidato à reeleição; e quase dois anos depois do início de uma série de escândalos que abalou a sua credibilidade e a unidade interna em torno de um "campo majoritário" pragmático que esteve no centro de todos esses episódios. A festa, no entanto, não será de "refundação": todos os movimentos do partido, desde a eleição de seu atual presidente, Ricardo Berzoini (SP), são no sentido de manter o status quo daqueles que ocuparam a máquina partidária e, por excessivo pragmatismo, sucumbiram à política tradicional. A proposta de "refundação" virou folclore, principalmente depois do processo eleitoral para a presidência da Câmara. A candidatura do deputado Arlindo Chinaglia mostrou que o partido mantém, antes de tudo, um incrível poder de consolidar unidades quando a perspectiva é o poder.

A candidatura de Chinaglia teve o poder de unificar os mais diversos grupos do partido - que agora podem ser catalogados mais por projetos de poder do que propriamente por posições ideológicas - e tornou-se a varinha mágica que poderá passar de vez a borracha sobre as histórias de envolvimento de políticos petistas com o "mensalão" ou, mais recentemente, com a tentativa de compra de um dossiê contra o governador José Serra. A volta do deputado Ricardo Berzoini à presidência do partido colabora com o projeto interno, que interessa teoricamente à maioria dos grupos (exceto às tendências de esquerda), de deixar tudo como está, para ver como fica.

A estratégia consolidada em torno da manutenção de Berzoini e da candidatura de Chinaglia à presidência da Câmara parece ser a de fortalecer o partido, pela unidade, frente ao governo. Isso significaria, na prática, aumentar o poder de barganha da legenda na composição do novo governo, frente aos aliados. Com esse objetivo, o núcleo petista de poder não parece se importar com o fato de que a disputa com Aldo Rebelo tenha desestabilizado a unidade entre os três partidos que, desde o primeiro mandato de Lula, são os aliados de primeira hora, o PSB, o PCdoB e o próprio PT - aliás, como reportado na matéria "Disputa na Câmara implode 'núcleo de poder'", publicado ontem pelo Valor.

A desenvoltura do PT para ocupar espaços de poder, independente das conveniências de uma aliança eleitoral e parlamentar, alimenta-se, em parte, da decisão equivocada do presidente Lula de adiar o anúncio do ministério do segundo mandato para depois das eleições da presidência da Câmara. Foi muito tempo entre a sua reeleição e a montagem da nova equipe - tempo suficiente para que o PT se insurgisse não apenas contra o governo, mas contra as ponderações do presidente, uma vez ou outra vazadas para a imprensa, de que poderá apoiar um candidato de outro partido para a sua sucessão, em 2010.

É o projeto da sucessão de Lula que está em jogo, na disputa pela presidência da Câmara e pelo comando do PT. E para ele parecem convergir os grupos que se envolveram em escândalos e aqueles com pretensão de emplacar o seu candidato. Até lá, pelo visto, o presidente Lula terá que governar com uma base de apoio parlamentar que será fluida, a começar pelo seu próprio partido. E poderá estar sujeito a outra série de crises políticas, repetindo o passado - quando, mais do que a oposição, foi o poder de fazer confusão dos aloprados petistas que o colocou sob o fogo cruzado de seus opositores.

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