Minha mãe, Mariana, quando morreu, aos 64 anos, provavelmente já tinha neutralizado todo o carbono que emitira. Na época do desperdício e do descuido com a Natureza, ela reciclava tudo. Não apenas as roupas para os 12 filhos, mas plásticos, papéis, latas. O que ia para o lixo era só o que não pudesse mesmo ter utilidade.
Onde ela aprendeu isso? Talvez no tempo de sua infância na roça, com escassez de tudo. Queria levar uma bronca dela? Deixasse uma luz acesa, escovasse dente com a torneira aberta, rasgasse uma sacola de plástico que poderia ter sido reutilizada.
Presentes deveriam ser delicadamente abertos, para usar o papel em futuros regalos ou na forração das gavetas. Barbantes eram enrolados e guardados num compartimento próprio para refugos aleatórios que pudessem ser necessários.
Quando achávamos, nesse compartimento, algo que estávamos procurando, ouvíamos sua alegria a comemorar: “Quem guarda o que não precisa, quando precisa, acha.” Respondia, com um sorriso sábio, às críticas de que aquele tanto guardar e reaproveitar era defeito e não virtude.
Se eu soubesse naquele tempo o que sei agora, sorriria junto.
Apesar de ter tido tantos filhos, voltou a estudar, concluiu o antigo segundo grau, fez pedagogia, virou uma excelente professora pública, mas continuava com os pés na terra. Aliás, as mãos.
Ela gostava de cuidar da terra usando apenas recursos, adubos e métodos naturais.
Sabia as luas e sua força em cada plantação, transformava qualquer quintal em pequeno sítio produtivo.
O mais espantoso era que ela sabia o segredo da água escondida. Minha mãe podia andar num descampado homogêneo e, de repente, parar num determinado ponto e garantir: aqui tem água. Podia furar e conferir.
A água brotava. Ela previa sol, chuva, frio, viradas do tempo, como se tivesse uma central de radares particular.
Só tinha um medo: da natureza enfurecida nas grandes tempestades.
Foi figura tão forte que seu nome vem atravessando as gerações da família.
Mariana, minha sobrinha, de beleza que lembra a avó, loura, alta e de olhos claros, fez pouco da carreira de modelo que lhe dera alguns frutos e foi ainda muito jovem para a Amazônia.
Viveu no meio do mato, conviveu com índios, foi professora de crianças pobres. Refez valores no meio da Floresta, para onde foi procurando, segundo diz, alguma coisa de si mesma que sentia que havia perdido cedo demais. O que sei que encontrou foi o extremo respeito à natureza e seus limites.
Há outras Marianas na família.
Mariana, filha de outra sobrinha, mudou-se para os Estados Unidos. Um dos meus irmãos tentou fazer uma pequena variação no nome e chamou sua caçula de Mariane.
Há dez meses, nasceu minha primeira neta, e os pais decidiram: seria Mariana.
Ela nasceu como um raio de sol num dia sombrio. Pareceu escolher a hora exata, numa difícil turbulência, para lembrar a todos a força da vida e a relatividade de certas dores. Pele morena e cabelo bem preto, sua beleza lembra as misturas da terra brasileira. Já vem testando sua natureza bípede e é forte nas quedas.
Quando a primeira das Marianas desta história estivesse completando 100 anos, se estivesse viva, em 2025, a última delas estará fazendo 19 anos. É pequeno o tempo entre elas, é curto o tempo entre minha mãe e minha neta, Marianas. E eu sou apenas um elo dessa corrente. Se nada for feito até a juventude da minha neta, ela poderá ver realizadas algumas das terríveis previsões feitas agora pelos cientistas. O tempo é espantosamente breve.
Outro dia um economista me perguntou, com ar de leve ironia, o que provocou a minha “conversão” ao meio ambiente. Conversão não é a palavra, pensei. Ouvi o eco da minha primeira Mariana e sua obsessão por poupar a terra, reciclar os produtos, fazer-se leve para o planeta, como se intuísse o futuro que só hoje entendemos.
Pensei no sentimento que tive ao ver, no rosto da minha neta, o prenúncio do futuro.
Conversão não é a palavra adequada para essa mistura de conhecimento e intuição desaguando na convicção de que está certo quem alerta para os riscos que o planeta corre. Os céticos tiveram muito tempo, contaram com a nossa propensão a deixar tudo como está e assim reinaram nas últimas décadas. Hoje eles são poucos e estão sem argumento.
Alem do mais, há uma lógica simples nisso tudo.
Se a Humanidade tira do planeta mais do que ele consegue refazer, dias desses, ele se esgota. Óbvio.
Se, em 40 anos, a Humanidade dobrou de tamanho, saindo de 3 bilhões para 6 bilhões de pessoas, e continua crescendo com o mesmo descuido no uso das fontes de vida do planeta; se, nos nossos mares, diz a FAO, 70% das espécies estão sendo pescadas além do limite da reposição; se 60% do ecossistema do mundo estão em declínio ou degradados, segundo o Millennium Ecosystem; se a Humanidade usa um terço mais do que o planeta consegue repor, e, se em 1992, esse déficit ecológico era um quarto, segundo o relatório Ecological Footprint of Nations, fica matematicamente comprovado que os riscos são extremos.
O Painel Intergovernamental de Mudança Climática expôs aos seres humanos o que havia de consenso entre 2.500 cientistas do mundo.
Quando me debruço sobre os novos dados que surgem diariamente a respeito desse inquietante tema, não tenho a sensação de estar fazendo uma descoberta, de estar diante de algo inteiramente novo. Mas, sim, a de estar, afinal, entendendo o sentido da primeira lição ensinada.
Entrevista:O Estado inteligente
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