| Jornal do Brasil |
| 16/2/2007 |
A descarga emocional que misturou perplexidade, indignação, revolta e a sensação da absoluta impotência diante da brutalidade do assassinato do menino João Hélio buliu com a memória do veterano repórter, vergado ao peso de seis décadas de atividade ininterrupta e que acreditava que já não tinha mais nada de novo a ver nem de se indignar. Não cobri o setor policial. Nos tempos de iniciante na antiga A Notícia, de Candido de Campos e Silva Ramos, a única sala da redação definia o estilo de convivência e intimidade, sem as frias e sofisticadas divisões da era da informativa, no jeito de salas de parto. Espremia-se no segundo andar de modesto prédio na Avenida Rio Branco, entre as ruas da Assembléia e Sete de Setembro, com a carcomida mesa ao centro, cercada de cadeiras em que cada um se acomodava para redigir as matérias, nas laudas de sobras das bobinas, aparadas a facão, com canetas tinteiro baratas, compradas nos camelôs. Ali, na sala sem baias e biombos, sabíamos de tudo o que acontecia de importante no Rio, no Brasil e no mundo. Inclusive os grandes crimes de violência passional, de sádica crueldade, do desatino do ciúme, das tragédias das traições nos desenganos do amor. E não amarguei o impacto que sombreou a vista, umedeceu os olhos, travou a garganta e disparou o coração remendado por duas mamárias como no tranco na alma do martírio do menino João Hélio. O que mudou tanto em 60 anos, nesga insignificante de tempo na história de uma cidade? A insônia que rola a madrugada revê o filme em preto e branco do Rio da perdida cordialidade, amorável, alegre, que envolvia o forasteiro e o transformava em carioca de nascença. Para acudir as despesas da família espichei o dia e a noite e acumulei bicos em jornais, revistas, rádios e mais tarde na televisão. Como a maioria das redações espalhava-se pelo Centro da cidade para a facilidade de acesso aos ministérios, autarquias, Senado, Câmara de Deputados, Câmara de Vereadores, era a pé que cobríamos as distâncias no desafio da mocidade ao cansaço da estafante jornada diária. Por muitos anos trabalhei no finado Diário de Notícias, instalado em sobrado colonial na rua da Constituição, que cruza a Praça Tiradentes. Na sala da reportagem política, em cima da fornalha das rotativas, aprendi com uma equipe fabulosa, que ilustra a crônica da imprensa e da cidade: Prudente de Morais, neto, o Pedro Dantas; Odylo Costa, filho; Osório Borba, Heráclio Salles, Pedro Gomes, e na cobertura parlamentar, José Wamberto e Castejon Branco. Depois de horas de busca da notícia no Palácio Tiradentes, sede da Câmara dos Deputados, do Senado no palácio no Monroe, derrubado pela estupidez, o serão entrava pela noite e pela madrugada. Nunca antes da uma, duas horas, descíamos os degraus da velha escada rangente. À porta, os grupos buscavam seus caminhos. Com o Odylo e o Heráclio repetíamos a caminhada da rotina, atravessando a Praça Tiradentes, descendo a Rua da Carioca e cruzando o Largo da Carioca até o Tabuleiro da Baiana, para esperar o bonde de horário incerto. E jamais nos passou pela cabeça o medo, o simples temor de assalto, roubo, violência ou desacato. A cidade era nossa. Do povo. Do transeunte rico, pobre ou remediado; adulto, homem, mulher ou criança. Quando do lançamento de O Dia, com as prerrogativas de fundador, criei os Comandos Parlamentares, de enorme sucesso popular. Com dois ou três deputados e senadores convidados, todas as quartas-feiras partíamos de manhã da sede do jornal para as visitas de surpresa aos endereços previamente escolhidos e que prometiam matérias de repercussão. Com senadores e deputados subi dezenas de favelas nos quatro cantos da cidade. Sem aviso prévio. Descíamos da caminhonete do jornal, com o fotógrafo, caminhávamos diretamente até a birosca para o dedo de prosa. Logo se aproximava o chefe local, geralmente o bicheiro e ou também presidente da associação comunitária. E, sem pedir licença, subíamos pelos becos e vielas acompanhados por moradores. Nunca fomos barrados, interrogados, suspeitados. O que corrompeu a cidade cordial e fraterna em seis décadas? Não faltam explicações de sociólogos e palpiteiros. Buscam justificativas as mais óbvias ou sofisticadas, da invasão das drogas e o domínio do traficante que expulsou o bicheiro à implosão populacional e suas variantes. E ainda a passividade, a indiferença, a abulia de governos, partidos, candidatos que descobriram a mina de votos nas favelas, vilas, invasões espalhando a praga do populismo. E mais a implosão dos profissionais do voto e gigolôs da miséria, do crime organizado, das favelas, da juventude perdida. O menino João Hélio Fernandes é a última vítima da falência do governo, do descalabro moral do Legislativo, da sociedade emparedada nas jaulas gradeadas das casas e apartamentos. Somos todos culpados. |
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Memórias de velho repórter - Villas-Bôas Corrêa
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