O GLOBO
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Nada como ouvir quem entende do assunto. No caso, o presidente do Ibope Carlos Augusto Montenegro. Poucos como ele conhecem o comportamento do eleitor brasileiro _ não por impressão, mas por meio de pesquisas e da escuta direta. Seus argumentos são os fatos, com os quais costuma desfazer lendas e mitos. Eu, pelo menos, acreditava que a Copa do Mundo teria algum efeito sobre as nossas eleições. Dependendo do resultado, o governo sairia beneficiado ou prejudicado. Um clima de euforia criado pela conquista se espalharia pelo país e ajudaria a reeleger Lula. O contrário teria o efeito oposto, claro. Mas não é assim.
"A influência é zero", ele garante, citando a História recente. Em 1998, o Brasil perdeu e FH se elegeu; em 2002, a seleção ganhou e o presidente não fez o sucessor. "Desde 1989 quem decide a eleição é a economia. O Real elegeu Fernando Henrique, e é pela economia que Lula será reeleito." Não tanto pela macroeconomia — PIB, juros, risco país — mas pela inflação baixa, Bolsa Família, crédito consignado, 4 milhões de novos empregos formais, coisas concretas. "Há 15 anos que a comida não estava tão barata. Quem não comia está comendo. Quem comia uma vez por dia está comendo duas ou três."
Mas e a crise, as denúncias, os escândalos, não pesam? Sua resposta é surpreendente. "Com a crise ele ganhou os pobres, que são a maioria dos eleitores. Essa classe nunca foi de Lula, mas de Collor e de Fernando Henrique. A crise mudou o perfil do eleitor lulista, que antes era feito basicamente de funcionários públicos, intelectuais, formadores de opinião, universitários, artistas. Ele conquistou o público que sempre o derrotara."
Assim, o que é desvantagem para seus antigos eleitores não seria para os novos. Como nivelam os políticos por baixo, eles os colocam no mesmo saco. "Além de temer a mudança, essa classe acha que são todos iguais e, sem contraponto, prefere quem ela já conhece, que fala a mesma língua, enfrentou as mesmas dificuldades, passou fome."
Num dos chamados grupos qualitativos, com gente das classes C e D, o presidente do Ibope assistiu a uma discussão que dá idéia dessa identificação. Uma senhora usou o seguinte argumento para defender a inocência de Lula: "Se eu não sei o que meu filho faz quando sai de noite, como é que o presidente poderia saber o que aquela gente fazia?" Os outros concordaram. Essas pessoas estão convencidas também de que corrupção sempre existiu e que agora foi o próprio governo, através das ações da Polícia Federal, que a tornou mais transparente.
Por tudo isso é que Montenegro não tem dúvida quanto à reeleição de Lula. "Hoje é mais fácil prever quem será o presidente do Brasil do que quem vai ganhar a Copa do Mundo."