O GLOBO
Ainda é provável que o PFL faça parte da chapa do PSDB às eleições presidenciais deste ano, com ou sem verticalização. Mas a escolha do governador Geraldo Alckmin como o candidato oficial abalou as convicções pefelistas em uma vitória, que era considerada bastante provável tendo o prefeito José Serra à frente da chapa. Porém, mais que a dúvida sobre a capacidade de derrotar Lula com Alckmin, pesará na decisão de aderir à candidatura tucana a estratégia de campanha, e nesse ponto as divergências já começam a aparecer.
O governador paulista reafirmou ontem o que já deixara claro em várias ocasiões: não pretende fazer campanha contra uma pessoa ou um partido, mas “a favor do país”. O PFL, ao contrário, seguindo a orientação do sociólogo Antonio Lavareda, do Idesp, está convencido de que é preciso fazer carga pesada, tanto que está no ar com uma campanha agressiva ligando os substantivos incompetência e corrupção ao PT e ao governo Lula.
O prefeito do Rio, Cesar Maia, ainda candidato oficial do PFL à Presidência da República e um especialista em pesquisas eleitorais, é adepto da tática agressiva, e considera que a campanha de Alckmin “já está atrasada”. Ele defendia a candidatura de Serra, e chegou a desdenhar das chances de Alckmin, garantindo que se ele fosse lançado, manteria sua candidatura.
Considerava que abrir mão de Serra, um candidato que aparecia nas pesquisas de opinião com o dobro da votação de Alckmin, seria um “suicídio político” do PSDB. Ontem, fez uma análise crítica da escolha em seu site oficioso na internet, chamando-a de “uma aposta de alto risco”.
Ao contrário do que defende persistentemente o governador Alckmin, que diz que a campanha eleitoral só começa a partir de agosto com a propaganda gratuita de rádio e televisão, Maia, baseado na tese de Paul Lazarsfeld, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, considerado “pai das pesquisas de opinião política”, acha que talvez não haja tempo para reverter o quadro que as pesquisas de opinião mostram, com Lula recuperando o apoio de todos os segmentos da sociedade.
O resultado da pesquisa Ibope divulgado ontem, aliás, teve papel importante na decisão de Serra de não disputar com Alckmin a candidatura. Ele procurou o instituto para tentar confirmar boatos que o davam novamente à frente de Lula, e teve “um cheiro” da tendência, que não o favorecia.
Lazarsfeld dizia, nos anos 30, que uma campanha eleitoral é como o processo de revelação de uma fotografia, antes da era digital: na primeira etapa, é preciso impregnar a imagem no celulóide, para em seguida se revelar a imagem na câmara escura. A primeira fase seria a pré-campanha, sem a qual não se conseguiria transmitir ao eleitorado a “imagem” do candidato para os decisivos últimos 60 dias da campanha propriamente dita.
Maia diz que, no Brasil, como não há a tradição das primárias partidárias como nos Estados Unidos, essa pré-campanha é feita ou pela participação do candidato em um cargo de exposição nacional, como a própria Presidência da República ou um ministério importante, ou com a candidatura, mesmo derrotada, numa campanha presidencial anterior.
Todos os potenciais candidatos estariam nessas situações — Serra, Garotinho e Ciro Gomes —, com exceção dos governadores Geraldo Alckmin e Germano Rigotto, que são lideranças regionais. Os candidatos em situação de inferioridade teriam, então, que partir para uma campanha eleitoral agressiva contra o candidato à reeleição “de forma a levar o eleitor a perder completamente a confiança e a segurança no presidente”.
O prefeito Cesar Maia acha que a campanha nessas circunstâncias não poderá ser “de confronto de programas, de alternativas”, mas sim “uma guerra de desgaste, de desmonte do presidente”. Ele ressalta, ainda, a dificuldade de fazer-se uma campanha desse tipo sem abrir espaço para um “tertius”. Na avaliação de Maia, a escolha de Geraldo Alckmin aproxima novamente o PMDB do PT e faz com que os votos da esquerda desiludida com Lula corram para a senadora Heloisa Helena, que será a candidata à Presidência do PSOL.
O PFL vai, portanto, aguardar a votação no Supremo sobre a verticalização, e a decisão do PMDB sobre a candidatura própria, que pode ser implodida hoje mesmo pela Executiva Nacional do partido, para decidir se faz uma coligação com os tucanos, se sai com candidato próprio para aumentar o número de postulantes e forçar um segundo turno na eleição, ou se simplesmente não terá candidato, para poder fazer coligações regionais com mais liberdade, jogando assim para ampliar seu poder de fogo no Congresso.
A posição do PSDB, diametralmente oposta, é explicitada pelo secretário municipal de Saúde e candidato ao Senado pelo Rio Ronaldo Cezar Coelho. Na sua definição, ética será um subtexto na campanha, representada pelo próprio candidato. “Denúncia de corrupção geral no atual governo não é centro do seu discurso, será papel de outros”. Ronaldo acha que o PSDB escolheu o melhor candidato, que trará a memória da eleição de 89 e seu mestre político Mário Covas “como referência ética na conjuntura que se repete”.
A disputa deste ano será, então, entre Lula e “um candidato novo, uma nova eleição, e não revanche da eleição perdida”. Alckmin poderá ser, segundo Ronaldo, “um verdadeiro candidato de oposição a Lula, com propostas de crescimento, com empregos, redução da carga fiscal e juros”. Ele “agrada pela simplicidade e firmeza, quando todos estão fartos dos políticos convencionais”. O anti-Lula seria, para Ronaldo, “o seu próprio governo, o Alckmin vai ganhar pela oposição”.