quinta-feira, março 09, 2006

Editorial de O Estado de S Paulo Liquidez menor não preocupa

Liquidez menor não preocupa

editorial
O Estado de S. Paulo
9/3/2006

Depois da ampla captação de recursos que o Brasil conseguiu no mercado financeiro internacional (US$ 32,8 bilhões em empréstimos sindicalizados), aproveitando-se da grande liquidez existente, alguns economistas alertaram que essa liquidez, da qual vários países emergentes se beneficiaram, poderia acabar neste ano. As perturbações dos últimos dias no mercado financeiro mundial levam os analistas a perguntar se já estaríamos entrando num período de vacas magras.

A mudança de clima no mercado internacional tem sua origem em diversos fatores: a mudança na presidência do Fed (o banco central dos EUA), que se traduz, como é normal, na incerteza sobre que nova política monetária os EUA podem adotar; a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de elevar sua taxa básica de juros e de anunciar que essa decisão poderá se repetir; e a probabilidade de que as autoridades monetárias japonesas sigam, hoje, o exemplo do BCE, atitude que poderá ser adotada, amanhã, pelo BC inglês.

Há diversos sinais dessa mudança de clima: uma queda sincronizada das cotações nas bolsas de valores no mundo; a elevação dos juros das "notes" de dez anos nos EUA; a queda da cotação dos papéis dos países emergentes nos centros financeiros, o que provoca um aumento do risco Brasil; uma alta da taxa de juros para os papéis da dívida mobiliária federal; uma menor entrada de capitais estrangeiros na bolsa brasileira e um adiamento do lançamento de bônus no mercado internacional.

Em Londres, o ministro Antonio Palocci afirmou que não está preocupado com essas perturbações do mercado internacional. Lembrou que a economia mundial se encontra ainda numa linha de prosperidade, como mostra a evolução do comércio internacional, e considera que a atual perturbação é episódica. Poderia ter acrescentado que, no caso brasileiro, a melhoria da situação cambial, com a forte queda da dívida externa do País, deixa o Brasil ao abrigo de qualquer crise internacional.

Os meios financeiros nacionais não acreditavam, ontem, que essas perturbações e sinais pudessem afetar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic. Além disso, as perspectivas de uma melhora do crescimento econômico pareciam capazes de se contrapor a uma visão pessimista no plano internacional.

É notório que o Brasil soube aproveitar-se muito bem do excesso de liquidez do mercado internacional em 2005, de modo que poderá, com tranqüilidade, reduzir, se necessário, novas captações. Tendo também antecipado o resgate de sua dívida com o Fundo Monetário Internacional, pode contar com a ajuda do organismo em melhores condições do que no passado.