sábado, março 18, 2006

EDITORIAL DE FOLHA O DESENCONTRO DAS ARMAS

A operação do Exército no Rio de Janeiro para recuperar a pistola e os dez fuzis FAL roubados de suas dependências em São Cristóvão foi uma sucessão de equívocos. Da guarda do equipamento ao anúncio do "sucesso" da intervenção, todas as etapas foram marcadas por falhas às vezes gritantes. Em vez de assumirem as dificuldades, oficiais deram declarações conflitantes.
Não há dúvida de que o Exército não pode tolerar que traficantes lhe subtraiam armas. Se isso ocorre, deve ser aberto um Inquérito Policial Militar, cujo cumprimento pode exigir a movimentação de tropas. O que se verificou, porém, foi algo bastante diverso. A operação deflagrada foi muito além do que uma investigação exigiria. Mobilizaram-se 1.200 militares, que chegaram a ocupar de forma ostensiva 12 favelas sem que se percebesse qual foi o critério.
Como os fuzis não apareciam, os militares acabaram negociando com traficantes, conforme relatado em reportagem nesta Folha. Em troca da devolução das armas, os bandidos obtiveram a desocupação das favelas, a promessa de transferência de um dos líderes da quadrilha do presídio de Bangu 1 e a criação de um enredo que atribuiria o roubo a uma quadrilha rival.
O Exército se desmoraliza quando permite que oficiais negociem com criminosos. Sua credibilidade só faz diminuir quando monta um grande teatro para levar a opinião pública a acreditar que as armas foram recuperadas em uma ação ostensiva dos militares. Embora os fuzis tenham sido recuperados no domingo, os militares encenaram uma operação na Rocinha na terça-feira, na qual anunciaram o "sucesso" da empreitada.
A versão, é claro, era frágil. E, a cada detalhe que ia caindo diante de fatos, oficiais se saíam com novas explicações, freqüentemente contraditórias umas com as outras.
O desencontro de informações sobre o episódio chegou a um nível que pode comprometer a imagem do Exército em futuras operações urbanas. Para evitar essa grave seqüela, a instituição ainda deve à opinião pública uma explicação cabal sobre os acontecimentos do Rio de Janeiro.