Reforma política? Não é coisa que o governo federal possa impor à pauta do Congresso. Crescimento econômico? Nada de pressa. Sacrifícios são necessários antes de uma arrancada. Mudanças na Previdência Social? Melhor fazer uma coisa por vez. Quem quer tudo ao mesmo tempo não chega a lugar nenhum. Diminuir o papel do Estado? Uma meta difícil de alcançar hoje, mas gostaríamos de algum dia chegar à situação de países como os EUA ou o Reino Unido.
Num passado recente, o presidente brasileiro que dissesse coisas desse tipo estaria exposto ao desdém e à virulência crítica das mais importantes lideranças petistas. "Falta de vontade política", "submissão à agenda neoliberal", "ausência de projetos claros para a sociedade" -figuras como Luiz Inácio Lula da Silva não hesitariam em mobilizar seu costumeiro arsenal retórico para desqualificar o governante que, entrevistado por uma revista de notório perfil conservador, desse declarações tão pouco ambiciosas, tão alheias aos anseios por mudança que se fazem sentir na sociedade brasileira.
Os tempos, entretanto, são outros, e decerto não constituirá surpresa para ninguém o fato de que é o presidente Lula, em entrevista ao semanário "The Economist", quem dá tantas mostras de comedimento em seus objetivos para o país.
É natural, e mesmo desejável, que um maior senso de prudência e responsabilidade tenham vindo moderar, no cotidiano administrativo, o ardor voluntarista de outros tempos. O que inspira desalento, na atual conjuntura, não é que um espírito de gradualismo tenha vindo temperar as antigas intransigências e gesticulações petistas. Mas, sim, o fato de que, tanto no governo como em diversos setores da oposição, prevaleça uma espécie de realismo degradado, sem perspectivas nem propostas, a serviço de cínicos interesses de autopreservação política.
A mediocridade de vistas vai impregnando o ambiente partidário em seu conjunto. No ano passado, a taxa de crescimento da economia brasileira foi a segunda menor da América Latina -superior, apenas, à do conflagrado Haiti- e, estranhamente, a estatística não produziu maior escândalo na opinião pública. E como poderia se, com o arrefecimento que ultimamente se verificou nas atividades das CPIs, parece que nem mesmo os escândalos de corrupção continuam escandalizando tanto assim?
A julgar por algumas pesquisas qualitativas, temas como o crescimento econômico e a corrupção não têm influído decisivamente nas inclinações do eleitorado. Não que mereçam exclusividade os assuntos em que o governo Lula se revelou decepcionante ao extremo e que obviamente constituem pontos passíveis de exploração nos palanques oposicionistas. O problema é que, entre as principais forças políticas em atividade no país, parece não haver ninguém dotado de condições elementares de credibilidade para assumir compromissos autênticos com o desenvolvimento econômico, com a modernidade administrativa, com a democratização do Estado e com um mínimo de transparência no financiamento da sua própria campanha eleitoral.
Poucas vezes, no Brasil, a política teve tão pouco a oferecer. Muito bem que tenha passado o tempo das bravatas ideológicas, e que promessas antes levadas a sério hoje se revelem irrealizáveis. Mas que o sentido da construção do futuro não se perca num estado de conformidade, indiferença e cinismo, que enfraquece o espírito da própria democracia.