domingo, março 05, 2006

Editorial da Folha de S Paulo CÂMBIO PASSADO

Prossegue a tendência de queda da cotação do dólar no Brasil. Também persiste a obtenção de grandes saldos positivos no comércio exterior -o que para alguns constitui evidência de que a apreciação do real não prejudica a produção nacional e, portanto, não deveria suscitar preocupações.
Vários aspectos cômodos dessa valorização têm sido enfatizados, com destaque para sua contribuição ao combate à inflação e ao barateamento das importações de bens de capital, o que estimularia o investimento.
A discussão desse tema deveria levar em conta a experiência recente do Brasil. Entre 1994 e 1998, houve um período de intensa e prolongada apreciação do real. Essa valorização barateou a importação de bens de capital, mas não desencadeou o prometido salto do investimento.
Decerto contribuiu para isso o fato de que o câmbio valorizado tornava pouco promissores projetos de investimento, sobretudo industriais, voltados à exportação. O enfraquecimento das contas externas, induzido pela valorização do real, tornou-se fonte de incerteza por alimentar o risco de uma crise cambial, o que inibiu o investimento.
Esse processo culminou numa desvalorização violenta do real, no início de 1999. O ponto a ressaltar é que a reação das exportações brasileiras de manufaturados à desvalorização demorou a se materializar. O que não é de surpreender: naturalmente demanda tempo a reorganização das empresas visando atender ao mercado externo -o que envolve o reforço dos canais de comercialização e investimentos voltados a adequar os produtos às exigências dos clientes externos, entre outros esforços.
Os frutos desse processo ficaram bem mais claros a partir de 2003. Somando-se à maturação desse ajuste das empresas o estímulo adicional trazido pela nova rodada de desvalorização do real, as exportações de manufaturados ingressaram numa trajetória de alta muito forte, que apenas recentemente perdeu ímpeto.
Dada a intensidade da valorização do câmbio verificada ao longo de 2005, parece até surpreendente a persistência das exportações de manufaturados em nível tão elevado. Tendo em conta, porém, o grande esforço empreendido pelas empresas a fim de conquistar mercados externos, é compreensível que elas relutem muito em abrir mão dessa clientela -mesmo ante um desgaste expressivo de sua rentabilidade.
Ainda assim, já se percebem reações das empresas. Além do corte de investimentos, ocorrem outros processos prejudiciais à criação de empregos, como a transferência de linhas de produção para países com custos mais competitivos.
Uma nova rodada de valorização do real se manifesta. Passa da hora de as autoridades agirem para contê-la. É preciso acelerar a redução da taxa de juros já na semana que entra.