sábado, março 04, 2006

Editorial da Folha de S Paulo CONTAS EM CONFLITO

O acúmulo de indícios de que o publicitário Duda Mendonça não contou toda a verdade quando esteve na CPI dos Correios, em meados do ano passado, aumenta a importância de seu próximo depoimento perante os parlamentares, previsto para o dia 15 deste mês. Está em questão a lisura da remuneração do profissional que trabalhou em diversas campanhas de relevo e que, em 2002, ajudou a eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República.
Em 11 de agosto de 2005, Duda Mendonça e sua sócia Zillmar Fernandes compareceram à CPI e confessaram ter recebido do PT R$ 15,5 milhões irregulares. Desse dinheiro, R$ 10,5 milhões teriam sido recebidos por meio de uma "offshore" nas Bahamas de nome Dusseldorf; e o pagamento, providenciado pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Mendonça atestava que fora compelido a abrir a conta no exterior -algo que nunca fizera antes- para receber o dinheiro que lhe era devido pelo trabalho nas campanhas do PT.
O depoimento do publicitário e de sua sócia marcou o ápice da crise política, o ponto em que a oposição mais se aproximou de solicitar o impeachment do presidente da República. A despeito do arrefecimento do clima em Brasília, informações ulteriores abalaram o cerne do que Mendonça dissera em agosto.
Há notícias da existência de outras contas relacionadas a Duda Mendonça no exterior, inclusive anteriores ao período em que trabalhou para o PT. Segundo integrantes da CPI, há discrepância entre os valores informados à comissão e os apurados na quebra de sigilo bancário.
Definir o volume, a origem e os beneficiários dos recursos ilegais que passaram por essas contas é trabalho tecnicamente complexo mas de suma importância. É fundamental para identificar os responsáveis pela fraude, que devem ser punidos com rigor. E é necessário para entender como funcionam os mecanismos ilícitos de financiamento da política e criar dispositivos, legislação e "expertise" burocrática capazes de evitar essa degeneração da vida pública.