sábado, março 11, 2006

CLÓVIS ROSSI Caixa dois de frases

LONDRES - Atribuir a Millôr Fernandes a frase "ou restaura-se a moralidade ou locupletemo-nos todos" provocou farta quantidade de retificações, que acabam sendo um pouco um retrato de como a frase é adequada ao Brasil.
Explico: muitos leitores escreveram para dizer que a frase é de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, notável crítico dos costumes, especialmente políticos, autor de uma expressão que se tornaria clássica (Febeapá, para Festival de Besteiras que Assola o País).
Outra leva de e-mails apontava como autor dessa mesmíssima frase o barão de Itararé, o jornalista Aparício Torelly, vereador eleito pelo Partido Comunista, cassado em 1947.
Houve até leitor que escreveu que Stanislaw de fato citava constantemente a frase, às vezes esquecendo-se de atribuí-la a Torelly, do que se originaria a confusão.
Agradeço aos leitores pela presteza da correção, ainda que me tenham forçado a uma pesquisa afobada na internet para tentar estabelecer quem era o verdadeiro dono da frase. Acabei ficando com Stanislaw porque está no livro de Renato Sérgio "Dupla Exposição: Stanislaw Sérgio Ponte Porto Preta", editado pela Ediouro Publicações, em 1998.
E meu vigilante editor, o Tedesco, também pesquisou no Google e encontrou um número quatro vezes superior de ligações da frase com Sérgio Porto do que com o barão de Itararé.
O que só demonstra que o direito autoral é, no Brasil, um lusco-fusco em que há mais incertezas do que qualquer outra coisa.
Não é à toa que o então ministro Pedro Malan costumava dizer que, no Brasil, nem previsões sobre o passado podem ser feitas com segurança (se ele "chupou" a citação de alguém, não é minha culpa).
De todo modo, para recompensar os fãs do barão, realmente um gênio da frase cortante, reproduzo uma delas, perfeitamente válida para a Câmara dos Deputados:
"De onde menos se espera, daí é que não sai nada".