O PT e o leninismo
Reinaldo Azevedo
Vocês já sabem que tenho um leitor implacável: “O”. Alguns internautas sugerem que ele não existe, que é uma espécie de alter ego meu. Bobagem. Claro que existe. No dia em que eu criar uma personagem, um outro “Eu”, talvez ele seja, sei lá, primaveril, meio esquerdista, ensolarado e bebedor de cerveja. Gente assim me parece feliz e com as contas sempre pagas. Além de boa-praça e de companhia. “O” não é bem assim. Ambos detestamos viajar e adoramos rotina. Também é meio soturno, como sou, mas menos exibido. Tanto que, brilhante, não aceita aparecer. Acho que ele tenta me passar algumas lições com sua discrição. Não aprendo. Não se trata de um outro “Eu”, mas de um “Eu” melhor do que eu. Como isso já parece charada de estruturalista francês, vou adiante.
“O” leu a página A12 do Estadão desta sexta (clique aqui se quiser ler as reportagens). Há ali uma reportagem sobre os esforços do PT para se reerguer. O clima é de festa e de virada. Também ficamos sabendo das agruras da mulher de Delúbio Soares e do pobre José Genoino, irmão daquele deputado estadual cujo assessor fazia da cueca um cofre, lembram-se? Não tem dinheiro nem para viajar. “O” leu tudo atentamente e me mandou um e-mail, que segue abaixo. É A Parte o Todo de hoje. Aproveitou para enviar um trecho de Dominique Colas do texto O leninismo. Em francês. Traduzi com alguma licença para me aproximar mais do sentido original. Bem, ele percebeu o que a maioria dos políticos de oposição ainda não sabe com clareza. “O” é mesmo do balacobaco. Segue seu texto.
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A página A12 do Estadão de hoje pode ser lida em inúmeras claves: histórica, sociológica, política, literária, mas principalmente psicanalítica. Lá se encontram, afinal, as lágrimas do admirável José Genoino, impedido (pela direita, claro!) de dedicar-se à revolução porque tem de trabalhar (deve ser por isso que não se vêem operários dirigindo “partidos operários”).
Genoino foi condenado — veja você! — a experimentar a vida como cidadão. Como pode alguém ser, injustamente, levado a viver em situação tão abjeta? Como pode alguém ser rebaixado a ponto de ter que lecionar para operários (!!!) e assim complementar a (magra?) aposentadoria de deputado? Aposentadoria que os petistas, quando na oposição, denunciavam como imoral.
Lá estão, também, os perseguidos Silvio Land Rover Pereira, sonhando com seu restaurante à beira-mar, e o professor Delúbio Soares, que, mesmo injustamente ameaçado de demissão por faltar alguns dias (110...) ao trabalho, conserva o orgulho de ter salvado o mundo que verdadeiramente conta: o PT.
E lá está, também, a “ala esquerda” do PT, que sempre não soube de nada, fingindo acreditar que agora, com a queda dos “oportunistas”, finalmente chegou a sua vez. Para assegurar-se de que não se repetirão os erros do passado, apressa-se em lançar a candidatura de... Lula (faltam-me as palavras...) e a repudiar qualquer aliança com o PTB, “que não passa de um balcão de negócios”. Afinal, Raul Pont ficou sabendo, de fonte segura, que o PTB andou fazendo negócios... no governo FHC.
Lida por alguém que desconhece absolutamente a história recente do Brasil, a matéria da A12 parece um exercício de new journalism aplicado à política. No entanto, bem podia o editor-chefe do Estadão publicar essa extensa matéria junto às notícias policiais. Pois a verdade é que esses grandes e pequenos petistas encontram-se deprimidos, revendo planos, dando aulas em sindicatos ou cuidando dos filhos única e exclusivamente porque foi (parcialmente) desmontado o faraônico esquema ilegal de arrecadação que lhes permitia eleger-se sem esforço e viver (à larga) como “líderes políticos”.
Com os recursos de políticos “comuns”, estão obrigados, como os políticos “comuns”, a “analisar a conjuntura”, contabilizar apoios e... articular a campanha de um amigo para deputado estadual. E depois sonhar com uma nomeação. No popular: estão deprimidos porque estão duros.
O quadro atual do PT é de uma pobreza moral e filosófica deplorável. Ao despojar-se por completo de quaisquer princípios e fixar-se como único e supremo objetivo o poder (entendido como ocupação do Estado), o autoproclamado “partido dos trabalhadores” se reduziu a uma horda intelectualmente heterogênea cuja “unidade de ação” é assegurada pela devoção e fidelidade dos “militantes” a “líderes” que possuem não mais que uma virtude: conhecem ou controlam os mecanismos de ocupação do Estado, a começar (e, freqüentemente, a terminar) pela arrecadação — legal ou ilegal — de recursos para campanhas eleitorais etc.
Não é acidental, por isso, a proeminência, num partido que se imagina recheado de intelectuais (ah, a imaginação...), de figuras tão intelectualmente obscuras como José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e, last but not least, Silvinho Pereira e Delúbio Soares. Todos chefiados por Lula, que odeia livros e intelectuais. Tudo se encaixa. Quem quer os fins quer os meios.
Desculpe, o e-mail ficou grande. É hora, portanto, nas palavras do imortal petista Paulo Ferreira, de “pôr um ponto final definitivo” nesta mensagem. Receba meu abraço.
“O”
PS: O capítulo 1 de Le léninisme, de Dominique Colas, toca num ponto muito importante para os que lutam contra o petismo: a total impossibilidade de diálogo entre Lênin e seus críticos. A clave é psicanalítica: “(...) il n'y a pas d'autre pour Lénine. (...) A la place de l'autre, comme objet d'une identification possible, est placé l'Autre, le garant de la verité, la source des énoncés vrais, c-est-à-dire l'histoire (...) Pas de recours pour qui parle à Lénine: il n'y a pas d'Autre de l'Autre. Il n'y a pas de Marx de Marx: comment invoquer Marx contre un énoncé marxiste? Comment invoquer Lénine contre Lénine? Comment parler au nom du prolétariat contre le parti du prolétariat, c-est-à-dire contre le prolétariat? Comment parler au nome des paysans opprimés contre le parti des opprimés? Impossible de parler au nom de l'Autre à l'Autre. Il serait fou celui qui parlerait à Dieu au nom de Dieu” (1).
A oposição, nessas circunstâncias, está condenada à “histeria”: “La gesticulation hystérique est alors un effort, nécessairement voué à l'échec, pour maintenir le lien intersubjectif, pour essayer de faire reconnaître son existence par l'autre” (2).
O leninismo, em suma, não se derrota no terreno democrático, dialógico — porque, para ele, o outro não existe —, e sim no terreno das relações de força. Ele não recua, não renuncia, não sai de cena por suas próprias pernas: tem que ser removido. É isso que grande parte da imprensa e dos políticos brasileiros parece não entender, quando se dirige ao PT e a Lula tentando mostrar-lhe(s) que certas coisas não se fazem.
É inútil. Eles têm que ser obstados, impedidos de fazê-las. O petismo, como o leninismo, não conhece outra linguagem. Quem ainda não entendeu isso pode vir a pagar caro para aprender.
(1)“Para Lênin, o outro não existe. Em lugar do outro como algo identificável, põe-se o “Outro” como a garantia da verdade, como a fonte dos enunciados verdadeiros: a história. Não há alternativa para quem fala a Lênin: não existe o Outro do Outro. Não existe o Marx de Marx. Afinal, como invocar Marx contra um enunciado marxista? Como invocar Lênin contra Lênin? Como falar em nome do proletariado contra o partido do proletariado — ou seja, contra o próprio proletariado? Como falar em nome dos camponeses oprimidos contra o partido dos oprimidos? Impossível falar em nome do “Outro” ao “Outro”. Só um louco falaria a Deus em nome de Deus.”
(2) “A gesticulação histérica é um esforço necessariamente fadado ao fracasso, para manter o laço intersubjetivo, para tentar fazer reconhecer sua existência pelo outro.”
[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 10 de fevereiro de 2006.