Em política ninguém mente completamente. A lista de Furnas pode estar salpicada de nomes que foram agraciados com caixa dois eleitoral intermediado pela estatal junto a fornecedores, mas é, em essência, uma dupla farsa: na montagem, tão calhorda quanto evidente, e no ambiente das relações políticas criadas entre personagens para justificar a existência da lista em si. É uma lista eivada de vingança política praticada por amadores.
O lobista Nilton Monteiro é um péssimo contador de histórias. Digo isso a propósito da hilária e impressionante história que ele contou sobre um advogado do Rio que teria o original da lista. Teria, mas não tem mais, porque o advogado morreu e ninguém sabe onde está a lista, que também teria sido entregue a uma mulher que mora no subúrbio do Rio.
Guarda terceirizada
Vejam só como são as coisas: Dimas Toledo, diretor de Furnas, e o lobista Nilton Monteiro teriam uma lista que, supostamente, seria ouro em pó, mas decidiram terceirizar a guarda do trunfo – que agora estaria em paradeiro incerto e não sabido. Mais: o lobista Monteiro, que exibe uma incontida raiva de tucanos, teria tido o olhar franqueado e cópia da lista de Furnas porque Dimas Toledo teria pedido que ele ajudasse a mantê-lo no comando da empresa. O PT chegou ao poder em 2003, e ele temia ser tirado do cargo. Por isso, queria fazer do conhecimento de um segredo uma arma de lobby.
Arma contra os tucanos que o teriam mantido no cargo por anos a fio? Contra os tucanos de Minas para que eles pressionassem o PT a mantê-lo no cargo? Por que, então, a lista tem uma centena e meia de políticos de todos os partidos, menos do PT? Acuados, os tucanos iriam pedir proteção aos petistas, concessão feita por meio da manutenção de Dimas Toledo no cargo.
Eta salada política difícil de digerir! Se Dimas queria transformar em arma de chantagem um segredo que só ele tinha, por que diabos o diretor de Furnas dividiria com terceiros um poder exclusivo?
A lista de suspeitas
O PT já foi melhor nesses jogos de ilusionismo político. Atribuo tamanha afobação ao desespero, o que eleva a lista de Furnas – só para recordar – à condição de farsa-prima. A saber, além da história do advogado do Rio, da mulher do subúrbio e das relações Nilton-Dimas:
• Roberto Jefferson diz que o PT, por meio do ex-tesoureiro Delúbio Soares, pegou dinheiro de caixa dois em Furnas, mas não há um só petista entre os mais de 150 listados;
• há políticos que nem sequer foram candidatos; há nomes de políticos com grafia errada; há nomes de políticos cujo nome está metade certo e metade errado; e há políticos que se candidataram por um Estado, mas na lista é-lhes atribuído um Estado a milhares de quilômetros de distância da base eleitoral verdadeira;
• o original da lista seria de 2002, mas os acréscimos providenciados por Nilton Monteiro teriam sido feitos em 2005;
• há nomes de empresas apontadas como doadoras, em 2002, mas com uma razão social que só foi criada em 2005.
Enfim, há um bocado de desespero em causa.
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Publicado em 10 de fevereiro de 2006.