"Só falam em redução dos juros e aumento
dos gastos do governo. Você quer saber
por quê? Ah, volúpia eleitoreira, cegueira
ideológica e interesses corporativos"
ELA – Como devo tratá-lo nesta entrevista, você, senhor, doutor?
EU – Pode me chamar de vossa majestade.
ELA – O senhor é cínico?
EU – Não, essa eu aprendi com um colega intelectual.
ELA – O senhor é mais velho e eu me sinto constrangida de chamá-lo de você.
EU – O Viagra acabou com o fosso entre as gerações.
ELA – O senhor é insolente.
EU – Sua falta de humor restaura o fosso entre as gerações. Do que quer falar?
ELA – Juros.
EU – Isso não! Ninguém mais agüenta.
ELA – O senhor irritou alguns poderosos ao afirmar que estão errados todos os que pensam diferente do senhor. Agora precisa explicar tanta pretensão.
EU – Não é pretensão. Acontece que estou certo, o que é diferente.
ELA – A ministra Dilma Rousseff, o vice-presidente José Alencar, líderes empresariais e outras eminências deste país acham que o governo deve alterar a política econômica do ministro Antonio Palocci. Estão todos eles errados e só o senhor é que está certo?
EU – Sim.
ELA – O senhor é contra a redução dos juros, a menos que haja corte de gastos do governo. Por quê?
EU – Queda forçada de juros sem corte de gastos produz euforia no curto prazo. No médio, leva à retração do investimento e à retomada da inflação. O Brasil gasta mais do que arrecada, e qualquer dona-de-casa sabe que isso é mortal.
ELA – Lula, Dilma e outros querem aumentar os gastos governamentais aproveitando o ano eleitoral. Como o senhor define essa escolha?
EU – Oportunista. Irresponsável. Ambos.
ELA – Se o governo cortar os próprios gastos, se reduzir a dívida que tem e se mantiver o déficit nominal zerado, pode reduzir os juros?
EU – Sim. Para a metade, pelo menos.
ELA – Mas os ministros dizem que é impossível cortar os gastos mais ainda.
EU – É mentira. Ou incompetência. Ou ambos.
ELA – Que tal reduzir o número de ministérios?
EU – São 35. Precisamos de uns quinze.
ELA – Que tal a extinção dos 25.000 cargos de confiança entregues a petistas?
EU – Yes!
ELA – Que tal uma seleção mais inteligente dos investimentos?
EU – Yes! Yes! Yes!!!
ELA – Que tal a tomada de preços para compras e vendas governamentais por meio de leilões na internet?
EU – Aécio Neves e Geraldo Alckmin transformaram déficit em superávit através dessas medidas, em Minas e São Paulo.
ELA – Só isso basta?
EU – É preciso ainda criar medidas que aumentem a produtividade da economia. Combater a burocracia, diminuir a sonegação, baixar a carga tributária, simplificar as leis trabalhistas. Com isso, o próprio mercado produzirá automaticamente o crescimento.
ELA – Então, por que ficam aí, como monomaníacos, só falando em redução dos juros?
EU – Volúpia eleitoreira, cegueira ideológica e interesses corporativos, minha cara.
ELA – Vamos discutir agora o fosso entre as gerações?