Entrevista:O Estado inteligente

sábado, dezembro 10, 2005

VEJA De olho nas eleições, Lula abre o cofre e manda gastar

Mais candidato que nunca

Lula deixa claro que tentará a reeleição
e já manda abrir os cofres para gastar


Otávio Cabral


Evaristo Sa/AFP
NA FAINA REELEITORAL
O presidente: no balanço do ano, ações simpáticas à classe média

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente desfez quaisquer dúvidas quanto às suas intenções eleitorais para 2006. Em público e em privado, Lula agiu desinibidamente como candidato à reeleição. Na segunda-feira, anunciou a liberação de 2,8 bilhões de reais (veja o trâmite das verbas públicas no quadro). No mesmo dia, ao abrir uma conferência de assistentes sociais em Brasília, fez um de seus discursos reeleitorais mais explícitos. "Tem muita gente nervosa porque o fracasso do governo virou sucesso. Nossos adversários ficam irritados quando comparamos dados", disse ele, procurando fustigar uma oposição que fez de tudo para não pedir seu impeachment no auge do escândalo do mensalão e trabalha diligentemente para manter o ministro Antonio Palocci de pé. Na terça-feira, Lula recebeu os astros do time do Corinthians, o novo campeão brasileiro de futebol. No dia seguinte, durante a posse da nova direção do PSB, defendeu uma mudança na lei eleitoral que, em tese, beneficiaria sua candidatura – e convidou publicamente o PSB para conversar com vistas a estabelecer uma aliança eleitoral para 2006.

Nilton Fukuda/AE
UM DOS NOMES
Mercadante: se não tentar o governo paulista, vai para a cúpula da campanha de Lula


A revelação dos planos reeleitorais de Lula, tendo ocorrido a dez meses do pleito presidencial, não veio a público com uma antecipação exorbitante. Afinal, Fernando Henrique Cardoso já estava empenhado em apresentar uma emenda autorizando a reeleição antes mesmo de tomar posse de seu primeiro mandato. O que chamou atenção na semana passada foi o espaço que a reeleição tomou na agenda de Lula. Além das indicações públicas, o presidente teve pelo menos dois encontros privados para tratar do assunto. Em um, pediu à cúpula do PMDB apoio à sua reeleição e à sua proposta de orçamento para 2006. Noutro, em conversa com um de seus articuladores políticos, mostrou-se preocupado com o atraso de sua campanha. Disse que os adversários já estão em campo, mas que o PT, destroçado pelo mensalão, caiu na letargia e não trabalha para 2006. Falou que se considera um candidato competitivo e prometeu concorrer mesmo que a crise venha a ceifar-lhe ainda mais popularidade. "No pior cenário, terei 30% dos votos e ajudarei o PT a eleger uma boa bancada. Sem mim, não há outro nome. O PT se enfraqueceria demais", analisou o presidente, de acordo com relato feito a VEJA por seu interlocutor.

Para driblar o que considera atraso na largada, Lula quer definir a estrutura da campanha ainda neste ano. Já fala em nomes. Com a saída do marqueteiro Duda Mendonça do circuito petista desde que se soube da bolada que ele recebeu em depósitos clandestinos no exterior, dois nomes têm sido cogitados: João Santana, ex-sócio de Duda, e Paulo de Tarso Santos, dono da agência Matisse e publicitário de duas campanhas presidenciais do PT. Para a coordenação do programa de governo, cargo ocupado por Palocci em 2002, Lula está entre o ex-ministro Tarso Genro e o senador Aloizio Mercadante – desde que Mercadante, é claro, desista de concorrer ao governo de São Paulo. O comando da campanha tende a ficar com o ex-ministro Ricardo Berzoini, atual presidente do PT. O maior nó, naturalmente, é encontrar um tesoureiro, função demonizada pelas picaretagens de Delúbio Soares. Lula sonha com um empresário. Chegou a sondar Oded Grajew, que foi seu assessor especial mas, decepcionado, acabou deixando o governo. Grajew descartou a idéia no ato.

O risco é que o empenho reeleitoral de Lula acabe degenerando em gastança, retomando o velho populismo econômico tão típico dos períodos pré-eleitorais. Até agora, felizmente, isso não aconteceu. Lula já marcou uma reunião com Palocci e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na qual deve dizer que espera resultados mais robustos para 2006, com um crescimento econômico de pelo menos 4% do PIB, mas ainda não mexeu nos pilares que sustentam a política econômica. Os 2,8 bilhões de reais que serão liberados em dezembro não comprometem o equilíbrio fiscal. A quantia corresponde a uma parte do excesso do superávit primário, que chegou a bater em 6,1% do PIB em outubro passado e deverá fechar o ano por volta de 5% – ainda assim, bem acima da meta oficial de 4,25%. O orçamento da União para 2006, no entanto, já exibe sinais claros de que uma eleição vem por aí. Só para publicidade, os gastos aumentarão em 46,5%, chegando a 326 milhões de reais. Além disso, Lula pediu que, no balanço anual a ser feito em 19 de dezembro na Granja do Torto, os ministros levem propostas de obras e projetos para 2006 que tenham alta octanagem eleitoral.

A idéia é realizar investimentos que tenham repercussão na classe média, a faixa do eleitorado que mais se desencantou com Lula depois do escândalo do mensalão. Na última pesquisa do instituto Sensus, divulgada no mês passado, informa-se que os eleitores que ganham de dez salários mínimos em diante apresentam o mais alto índice de rejeição a Lula – cerca de 60% reprovam sua administração e não pretendem votar em sua reeleição. Caindo na classe média, Lula também viu seu patrimônio eleitoral minguar nos maiores centros urbanos e nas regiões mais desenvolvidas do país. Continua imbatível, mas apenas entre os mais pobres, os menos educados e os habitantes do Norte e do Nordeste. Algumas das ações estudadas para reconquistar a simpatia do eleitorado que está sumindo são a construção de prisões federais, a duplicação e a recuperação de rodovias, o aumento dos financiamentos imobiliários, a utilização do fundo de garantia para o pagamento de mensalidades escolares e a conclusão de obras do metrô em Fortaleza, Salvador e Belo Horizonte. Quando um dirigente começa a pensar em ganhar a eleição à base de investimentos públicos, há dois riscos – que o investimento seja malfeito e que o equilíbrio fiscal das finanças públicas vá para o espaço. Torce-se para que não aconteça nem uma coisa nem outra.





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