Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, dezembro 12, 2005

São Delúbio DENIS LERRER ROSENFIELD

o globo


São literalmente estarrecedoras as novas notícias do depósito de 1 milhão de reais em espécie, feito pelo PT na conta da Coteminas, de propriedade do vice-presidente José de Alencar e dirigida por seu filho. Os tais "recursos não-contabilizados" se mostram das mais variadas formas, numa sucessão de fontes e variedades, que atiçam qualquer imaginação. Ora são "empréstimos" fajutos, ora recursos desviados de empresas públicas. Basta que a oposição nada faça para que o PT e o governo desfiram um novo golpe sobre eles mesmos. Eles se tornaram exímios na arte da autodestruição. Psicologicamente, são masoquistas.

As primeiras explicações do presidente da Coteminas e do vice José Alencar exibem um comportamento que beira ao completo descrédito de operações comerciais normais. Eles tomam como se normal fosse um depósito, em espécie, de 1 milhão de reais. Bota nota nisto! Numa época em que inclusive o cheque começa a ficar em desuso, em cidades brasileiras que primam pela insegurança nas ruas, uma funcionária do PT passeia com todo esse dinheiro, sem nenhuma preocupação maior. Com bolsa, maleta ou calcinhas, poderíamos nos perguntar? Ou haveria uma preocupação maior que impediu essa "jovem senhora" e aos seus dirigentes de fazer uma operação normal via Ted, Doc ou mesmo cheque? E o presidente da Coteminas achou tudo isso normal? É uma norma usual da empresa? E o próprio vice-presidente não foi alertado de uma operação que mostrava todos os indícios do ilícito?

E a nova direção petista, como sempre, escorregou em suas próprias palavras, primeiro não reconhecendo o que o partido fez e, quando não podia mais negar o pagamento irregular pelo peso imperioso dos fatos, reconheceu que desconhecia contabilmente a operação por esta não estar registrada. É impressionante como a nova direção desconhece que o PT é uma pessoa jurídica e que o feito pela antiga direção é também responsabilidade da nova. Aliás, a dívida do PT com a Coteminas, pela venda de 2,75 milhões de camisetas para a campanha de 2004, é de 12 ou 11 milhões de reais? O 1 milhão de reais pagos com recursos ilícitos serão ou não contabilizados? Por que não doar esse dinheiro "não sabido" para uma instituição de caridade? A culpa é do Delúbio!

E o "nosso" presidente da República, que de nosso só aproveita o que é dele, segue impávido em sua cruzada de cara de pau. Desculpem a forma direta, mas não é mais admissível que o representante máximo da nação continue a falar de "supostas irregularidades", de "crimes não cometidos", da "inocência" de ministros por ele mesmo defenestrados, como se o chão não estivesse sendo subtraído dos seus pés. É propriamente inacreditável como as palavras jorram de sua boca com o único propósito de confundir, descaracterizar e ocultar toda a corrupção que foi introduzida por seu governo. Num ponto, porém, o presidente Lula tem razão: "Jamais na história do Brasil, desde o descobrimento, se viu algo igual. No futuro", acrescenta ele, "todos reconhecerão o ineditismo de seu governo." Lula merece um troféu: cara de pau de ouro! Toda a culpa é do Delúbio.

Delúbio, enquanto isto, tudo acompanha impávido, calado, sabendo medir a distância do tempo. Uma tal qualidade não é normal, pois ela lhe permite suportar os piores sofrimentos e ataques, como se sua ação estivesse, na verdade, acima de qualquer suspeita e, sobretudo, acima da cizânia e inveja dos seus companheiros. Seu comportamento tem todas as características de um comportamento religioso. Penso que quando o PT voltar à razão e cessar de fazer acusações injustas ao seu agora ex-companheiro, ele lhe reconhecerá suas imensas virtudes e lhe proporá uma canonização. Por tanto sofrer nas mãos dos petistas, ele deveria ser proclamado São Delúbio e seu corpo, quando morrer, deveria ser exibido junto ao de Lênin em seu mausoléu. Lula, se vivo ainda estiver, e não tiver sucumbido às suas contradições, incoerências e mentiras, se não tiver moralmente e mortalmente enrolado a língua, poderia novamente realizar o seu velho sonho de visitar o mausoléu de Lênin. Só que, agora, o seu prazer seria infinitamente maior, pois a contribuição do seu partido seria até pelos russos reconhecida. Nada precisaria combinar, tudo já estaria combinado.

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