Acho que descobri o pior argumento econômico de 2005. Considerando as idéias que o governo Bush tentou "vender" ao povo americano na sua fracassada campanha para privatizar a Previdência Social, isso não é pouca coisa. Esse argumento surgiu na mais recente etapa da disputa entre a rede de supermercados Wal-Mart e seus críticos. O grupo "Acorde, Wal-Mart" divulgou um anúncio na TV, com base numa carta assinada por líderes religiosos, na qual acusavam a gigante do varejo mundial de pagar salários baixos e conceder poucos benefícios aos empregados. A carta dizia que "Jesus não apoiaria os valores do Wal-Mart de avidez e de obter lucros a qualquer custo". Você pode alegar que a campanha intitulada "Onde Jesus faria compras?" passou dos limites. Mas está claro por que as pessoas preocupadas com a situação dos trabalhadores americanos concentram suas críticas no Wal-Mart. A empresa não é apenas a maior empregadora dos Estados Unidos. É também um símbolo da situação da nossa economia, cujo Produto Interno Bruto continua a crescer, enquanto o padrão de vida do trabalhador ou se estagnou ou caiu. Pois o Wal-Mart é uma empresa enorme, com lucros enormes, que paga mal e oferece benefícios mínimos aos funcionários. Os ataques ao Wal-Mart prejudicaram a sua imagem e talvez até os seus negócios. A companhia montou um esforço de guerra para responder aos ataques. E como o Wal-Mart reagiu a esta última crítica? A empresa pode alegar, com justiça, que a sua atividade torna os EUA mais ricos. O fato é que o Wal-Mart vende muitos produtos mais baratos do que as lojas tradicionais, e que vende barato não apenas, ou não principalmente, por causa dos baixos salários que paga. O Wal-Mart consegue reduzir os preços em grande parte porque introduziu no varejo inovações tecnológicas e organizacionais. É mais difícil para o Wal-Mart defender a sua política de salários e benefícios. Mesmo assim, a empresa poderia argumentar que, apesar do seu espantoso tamanho e domínio de mercado, ela não pode desafiar as leis férreas da oferta e da demanda, que a obrigam a pagar salários baixos (eu discordo, mas este é um assunto para outra coluna). Mas em vez de responder às críticas com esses argumentos plausíveis, o Wal-Mart insultou a nossa inteligência ao se proclamar uma usina geradora de empregos. A julgar pela nota que divulgou em resposta à campanha dos valores religiosos, a afirmação de que o Wal-Mart "cria 100 mil empregos por ano" tornou-se o centro de sua estratégia de relações públicas. É claro que a empresa está crescendo todos os anos. Mas acrescentar 100 mil pessoas à força de trabalho do Wal-Mart não significa acrescentar 100 mil empregos à economia. Ao contrário, há motivos para se acreditar que, à medida que o Wal-Mart se expande, ele destrói pelo menos o mesmo número de empregos que cria, e derruba os salários dos trabalhadores nesse processo. Veja o que ocorre numa cidade ou bairro em que o Wal-Mart abre a sua primeira loja. Ela tira vendas dos comerciantes, que dispensam trabalhadores ou fecham as portas. Como as gigantescas lojas do Wal-Mart empregam menos trabalhadores por dólares de vendas do que as lojas menores que ela acaba substituindo, o emprego global no varejo certamente cai, e não sobe. E se os empregos perdidos vêm de empregadores que pagam mais generosamente do que o Wal-Mart, os salários globais cairão, quando o Wal-Mart chegar. Não estou especulando. Um estudo de David Neumark, da Universidade da Califórnia, e dois associados do Instituto de Políticas Públicas desse Estado, chamado "Os Efeitos do Wal-Mart nos Mercados de Trabalho Locais", recorre à análise estatística para calcular os efeitos sobre os empregos e os salários desde quando o Wal-Mart começou a se expandir. Os autores concluem que o emprego no varejo cai quando o Wal-Mart chega a um novo local. Não está claro se o emprego global recuou ou subiu quando o supermercado foi aberto, mas está claro que o salário médio caiu. Portanto, o Wal-Mart decidiu se defender com um argumento muito pobre e continuará perdendo a batalha na opinião pública. Talvez a empresa devesse pensar numa estratégia alternativa, como pagar melhores salários.