Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, dezembro 15, 2005

O Bispo e o Presidente PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.

FOLHA DE S PAULO


Escrevo , como sempre, na quarta-feira, de Brasília desta vez. Estou aqui a convite de dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), que fez a greve de fome contra a transposição das águas do rio São Francisco. Dom Luiz organizou uma reunião que começou nesta quarta. O objetivo é reunir especialistas para finalizar um documento que será entregue ao presidente Lula, explicando as razões pelas quais o projeto de transposição deve ser abandonado e apresentando, também, propostas para a convivência com o semi-árido. Acabou de chegar a notícia de que o encontro com o presidente acontecerá nesta quinta, às 17h30.
Deixei agora há pouco a reunião, que começou às 9h, para escrever este artigo. São 16h30 neste momento. Estou em apuros novamente. É um tema muito difícil de tratar. Primeiro, porque é novo para mim. Segundo, porque a carga emocional associada a ele é fora do comum.
Na última vez em que escrevi sobre dom Luiz aqui na Folha, em 20 de outubro, sofri uma espécie de bloqueio. Telefonei por volta das 17h da véspera para Jacques Constantino, que cuida da coluna "Opinião Econômica", e pedi a ele que tivesse um outro artigo de sobreaviso para a hipótese de eu não conseguir chegar a um resultado aceitável a tempo. Ele respondeu, alarmado: "Agora, não dá mais! Tem que ser o seu". Foi, literalmente, um deus-nos-acuda. Desliguei o telefone, voltei para o computador e, por incrível que pareça, o texto saiu praticamente de um só jato. Não fiz nem as pequenas correções e revisões de última hora com que costumo importunar Jacques. O artigo saiu limpo, do jeito que eu queria. Um pequeno milagre.
Naquela ocasião, escrevi sobre a belíssima missa que dom Luiz rezou aí em São Paulo, no convento de São Francisco. A cerimônia teve momentos comoventes e até eletrizantes. No final, eu disse a dom Luiz que, se encontrasse as palavras certas, escreveria sobre aquela missa. Ele me disse: "Deus vai lhe iluminar, e as palavras virão".
Percebo que, hoje, as palavras estão vindo de novo, aos poucos. A reunião coordenada por dom Luiz conta com a participação de especialistas que têm grande conhecimento e vivência do assunto, como João Suassuna, João Abner, Manoel Bonfim Ribeiro, Nancy Mangabeira Unger, Adriano Nunes, Roberto Malvezzi, entre diversos outros. O documento que resultará da reunião deve estar disponível nesta quinta à noite, depois do encontro de dom Luiz com o presidente da República, no seguinte endereço: www.umavidapelavida.com.br.
Os argumentos e informações apresentados por esses especialistas merecem a consideração cuidadosa do governo Lula e da sociedade brasileira. O projeto de transposição de águas do São Francisco envolveria gastos de R$ 4,5 bilhões, comprometendo grande parte dos recursos públicos para investimento no Nordeste nos próximos anos. As águas desviadas do rio vão passar longe da grande maioria da população rural do sertão, explicam esses especialistas. A abrangência espacial da obra é pequena. Estima-se que o projeto atingirá no máximo apenas 2% da área total do semi-árido. O custo da água transportada será muito alto. Além disso, esses especialistas argumentam que não existe déficit hídrico nos Estados beneficiários da transposição que justifique um projeto dessa dimensão. O que existe é má distribuição e gestão das águas disponíveis.
O leitor encontrará o detalhamento desses e outros argumentos no documento acima referido. Caso haja dificuldade em acessar o endereço eletrônico indicado, eu me comprometo a enviá-lo aos interessados.
O debate nacional sobre esse assunto está apenas começando. Quando dom Luiz suspendeu a greve de fome, houve um acordo com o presidente Lula, feito com a intermediação do ministro Jaques Wagner, de que o projeto de transposição não seria iniciado antes da realização de um amplo debate que esclarecesse as dúvidas e divergências.
O governo tem a obrigação moral e política de examinar os argumentos dos críticos do projeto e discuti-los em profundidade com a sociedade brasileira.
A determinação de dom Luiz continua inalterada. É a mesma que o levou a escrever, em artigo publicado na Folha, logo após a interrupção da greve de fome: "Voltarei ao jejum e à oração, com mais determinação ainda, se o acordo firmado em confiança com o governo não for cumprido. E sei que não estarei sozinho".
Não estará mesmo. Se o governo romper o acordo e iniciar as obras a curto prazo, correrá o risco de provocar uma tragédia, uma comoção com repercussões no país inteiro e até no exterior.

Arquivo do blog