Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Miriam Leitão Hora certa

O GLOBO

O otimismo das grandes empresas globais sobre a economia mundial caiu um pouco do ano passado para este ano. Em 2004, 70% estavam bullish , ou seja, interessados em aumentar investimentos externos. Esse percentual caiu para 36%. Ao mesmo tempo, supercapitalizadas como estão, as grandes empresas têm que procurar outros países atrás de bons investimentos. O ideal seria aproveitar o momento para atrair esse investidor.

Há mais pontos importantes para se pensar sobre o novo relatório da AT Kearney de investimento direto, objeto da coluna de ontem. A pesquisa elevou o Brasil no ranking dos melhores destinos para investimento. Mostrou também que, desde 2001, o investidor mudou. Assustadas com o 11 de Setembro, as empresas se retraíram para as suas sedes. Passaram a acumular um volume enorme de capital. Agora, enfrentam o dilema: correr riscos fazendo investimentos em outros países ou segurar o dinheiro para momentos de maior garantia?

O diretor responsável pelo Índice de Confiança do Investidor Estrangeiro — FDI Index, Jonathan White, diz que as empresas ainda estão relutantes e retendo grande volume de liquidez, mas, quando elas decidirem gastar mais, provavelmente haverá um aumento do investimento direto. O momento para isso, porém, ainda não chegou.

A AT Kearney destaca que a Índia está no início da decolagem, mas afirma que o país tem ainda muita reforma para fazer. O processo deles

O caminho do capital de investimento é mesmo o do mundo em desenvolvimento. Eles

Quanto aos critérios de escolha de localização de investimento e de formação da percepção de risco, houve uma queda nos que normalmente freqüentam o topo da lista. O único que não caiu foi o risco regulatório, que ainda é apontado por 60% dos que responderam à pesquisa. Mas no que diz respeito à lista de riscos que normalmente vêm em segundo lugar, houve um acréscimo importante. Por exemplo, saiu de 20% para quase 40% o medo de interrupção de fornecimento de produtos-chaves, ou dos contratos com parceiros e clientes; aumentou também o medo de problemas de governança corporativa; de crise na indústria de tecnologia. Num ano de katrinas, wilmas e terremotos, como não poderia deixar de ser, triplicou o medo de desastres naturais.

Em relação ao Brasil, apenas 6,9% dos investidores estão este ano mais pessimistas do que no ano passado, e 24,8% melhoraram sua perspectiva. Os outros mantiveram. É possível encontrar muitas notícias boas no relatório a nosso respeito e isso foi mostrado aqui ontem na coluna.

Por outro lado, no agregado, o que assusta é que, na primeira onda de aumento do fluxo internacional de investimento direto, o Brasil aproveitou bem. Foi após o início da época da estabilização, das reformas, da privatização, da criação das agências regulatórias e da desregulamentação de algumas áreas. O Brasil chegou a receber num ano US$ 32 bilhões de investimento. Mas as reformas ficaram incompletas, o processo foi interrompido e, em algumas áreas, houve retrocesso. O pior problema ocorreu exatamente na área que mais bloqueia os investimentos, que é o risco regulatório. As agências hoje não têm mais nada de independentes. Passaram a ser balcões burocráticos onde o governo distribui cargos aos aliados da base. Existem cadeiras vazias em agências esperando a chegada do próximo mês de abril. Nesse mês no início de 2006, o governo fecha a aliança eleitoral e quer guardar os cargos para acomodar alguns afilhados políticos de última hora. Evidentemente não é assim que se faz um país com segurança regulatória. Sem falar nos riscos de escassez de energia por falta de interessados em novos projetos. O próximo leilão de energia será um grande teste para o modelo desenvolvido por Dilma Rousseff, mas há pouca chance de atrair investidores.

Depois do 11 de Setembro, o fluxo externo de investimento direto caiu à metade, as empresas se capitalizaram e podem, a qualquer momento, retomar a caminhada por novas oportunidades de investimento. Essa será a hora de criar um país com bom ambiente de negócios. Dos investimentos diretos estrangeiros, 22% são destinados a fazer parcerias com empresas locais, outros 37% são para fusões e aquisições. É um processo, portanto, que interessa as empresas nacionais também. O Brasil não deveria perder a hora certa, mas do jeito que a coisa vai, pode perder sim.


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