O fantasma de um novo populismo ameaça dar as caras nos planaltos e planícies da América Latina. A preocupação foi manifestada num Seminário Internacional de Economia realizado recentemente no Rio de Janeiro e teve como motivo os oito pleitos presidenciais na região, entre dezembro deste ano e outubro de 2006, quando se realiza nossa eleição. O Brasil, ao lado de México, Argentina, Panamá, El Salvador e Peru, apresenta risco político médio de entrar no mapa neopopulista. Fica entre o alto risco de países como Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia e o baixo risco de Chile, Uruguai e Costa Rica. Os economistas, como seria de esperar, carregaram nas tintas conceituais, puxando o neopopulismo para a esfera exclusiva da economia, esquecendo variáveis cada vez mais escassas nas sociedades ocidentais, como líderes carismáticos e massas sensíveis a apelos demagógicos.
Paira efetivamente sobre o Brasil esta ameaça? Dentro da arquitetura desenhada por economistas para o novo populismo, a resposta é positiva. A janela de oportunidade para a inoculação do vírus contemplaria mudanças drásticas na política econômica, ocasionadas pela intolerância com políticas monetárias conservadoras, restritivas ao crescimento. O novo modelo, acentuado por viés micropopulista, incluiria decisões sobre elevação de salários, alta redução de juros, proteção à indústria nacional e continuidade da incerteza quanto às regras do jogo, entre outras coisas. Tal feixe de idéias, na visão de pessimistas, seria corroborado por maior independência das economias nacionais em relação ao mercado financeiro internacional. Se a tese for correta, a intenção de Lula de fazer ajustes na economia, contemplando cortes nos juros e expansão de gastos em 2006, com o fim de garantir condições para a reeleição, poderá vir a ser a primeira fresta para o vírus neopopulista se manifestar. Mesmo sabendo que o fator econômico propicia climas de instabilidade, adequados para fazer florescer o populismo, não é plausível explicar o fenômeno por uma única via. Vejamos.
O populismo apresenta-se na forma de governar e na política de massas. Integra a estratégia do governante para se aproximar do povo e ouvir suas aflições. A liturgia requer contato emocional com as massas, às quais se prometem soluções fáceis no bojo de programas de cunho assistencialista. A linha populista ampara-se ainda na insatisfação popular difusa, sem direção, e na tática deliberada e matreira do governante e de partidos para canalizar o clima social, transformando-o em base de manutenção de força. Foi assim com Getúlio Vargas, que, estribado na revolta dos trabalhadores urbanos contra a política econômica e social do capital cafeeiro e o regime das oligarquias, fez a Revolução de 30, abrindo o País para o ciclo da industrialização. Vargas costurou o populismo ao nacionalismo. No México, Lázaro Cárdenas, de 1934 a 1940, elevou a bandeira populista ao patamar mais alto pela tentativa de reestruturar a economia com a mágica de fundir os moldes socialista e capitalista. O populismo cardenista comportava diálogo aberto com a burguesia e o proletariado. Mais duro que o caudilho mexicano, Perón, na Argentina, entre 1946 e 1955, cristalizou o conceito de que os interesses dos cidadãos eram os da pátria. Quebrou a autonomia política dos sindicatos, estabelecendo fortes vínculos entre eles e o Estado.
Nesses exemplos clássicos se evidencia a dualidade: vertente popular e carisma do líder formam o cerne do populismo. Ao perfil individual se junta a passividade de massas dependentes do Estado. É verdade que o baixo índice de renovação das elites tradicionais explica o surgimento de lideranças carismáticas no ciclo da personalização da política, que se intensifica a partir dos anos 80. O coronel Chávez é um ícone desse fenômeno. Ao misturar fidelismo, militarismo e nacionalismo, firma-se, ao lado de Fidel, como a ponta avançada de um esquerdismo extravagante, explicado pelo fato de que soube mexer com o psiquismo de contingentes depauperados, desmantelar a velha elite e dividir a sociedade, vendendo a imagem de símbolo da Revolução Bolivariana. Na Venezuela e em Cuba, os eixos que sustentam o populismo são monumentais, razão por que as imagens de ditador, caudilho ou pai da pátria até ganham aplausos. Veja-se esta última batalha eleitoral de Chávez. Pode-se falar em vitória acachapante quando 75% dos eleitores não compareceram às urnas? O populismo não tem vida eterna. Corrói seus líderes, quando os resultados, no médio prazo, estão aquém das expectativas. Exceções ficam por conta de Estados autoritários, como Cuba.
O Brasil é bem diferente. Parte da sociedade depende fortemente do Estado, mas não mantém com ele vínculos de fervor e crença. Difícil imaginar os mais de 50 milhões de miseráveis saindo às ruas para aclamar Lula ou outro político que se apresente como São Jorge brandindo a espada contra o dragão da injustiça. A democracia de massas abre espaço, entre nós, para um sistema orgânico, no qual se mobilizam núcleos organizados. Já não se pode falar de massas passivas. Neste ponto, cabe voltar à questão: pode o Brasil entrar na onda neopopulista? Ao responderem sim, economistas desconsideram outros fatores. Inserir o neopopulismo numa estrutura assentada em parâmetros econômicos é tapar os olhos para a ciência social e a geopolítica. A interdependência das economias brasileira e internacional é estreita. Ademais, a organicidade social no País não mais aceita ensaios populistas. Collor tentou ser um deles. Foi escorraçado. Lula, é verdade, tem carisma. Mas perdeu a capacidade de mobilizar imensos contingentes. No início do mandato, até que experimentou ir ao encontro do povo. Durou pouco. Faltando governo, falta massa. Donde se aduz que só com muito milagre o neopopulismo dará frutos no Brasil. A resposta à questão inicial, nesse caso, é não.