Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 13, 2005

Editorial de O GLOBO

Mau passo

Lançado por José Dirceu no pronunciamento de despedida do cargo de ministro-chefe da Casa Civil, o conveniente discurso do golpe das elites, e da tentativa de desestabilização do governo pelas oposições, nunca foi levado a sério.

O fiel escudeiro Delúbio Soares chegou a usar o mesmo bordão enquanto tentava assumir a inverossímil responsabilidade exclusiva pelas malfeitorias financeiras do PT. Não deu certo. Na fase em que procurou se refugiar da crise em palanques armados pela CUT e pelos chamados movimentos sociais — alguns deles beneficiários do aparelhamento petista da máquina pública — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se valeu desse artifício de retórica. Sem êxito.

Surpreendeu, portanto, o presidente exumar esse discurso fantasioso na sexta-feira passada, quando participava de uma reunião do Mercosul em Montevidéu. A infeliz comparação com a história política recente da Venezuela denuncia que alguma influência negativa sobre o estado emocional de Lula o caudilho Hugo Chávez há de exercer. Não deve ter sido por coincidência que o presidente brasileiro deu a desastrada declaração entre conversas com Chávez, um notório mau conselheiro.

Não há qualquer semelhança possível entre a realidade venezuelana e a brasileira. A crise política que empareda o governo de Luiz Inácio Lula da Silva se originou da denúncia de um aliado, Roberto Jefferson — denúncia de fatos escabrosos cometidos por representantes do partido do presidente e pela base parlamentar do governo.

E mais: é conhecida a resistência de parte da oposição a encaminhar o pedido de impeachment de Lula, uma postura muito diferente da oposição a Chávez. Tão impensada foi a ressurreição da tese do golpe que ela ocorreu enquanto o ministro Jaques Wagner se desdobrava em Brasília para restabelecer o diálogo com tucanos e pefelistas, necessário para o Congresso voltar a funcionar como o país precisa.

Aconselha-se a Lula uma pausa para reflexão. Ainda mais no momento em que o PT alveja a política econômica, ele trabalha contra a governabilidade ao agredir as oposições, principalmente o PSDB e o PFL.

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