Com as exceções que confirmam a regra, o desfile de depoimentos nas CPIs tem se tornado um verdadeiro concurso de aptidões: para mentir sem preocupações maiores de exibir algum simulacro de verossimilhança - ou "mentir de cara lavada"; para negar responsabilidades, mesmo em se tratando de assuntos em que a lei exige a clara responsabilidade funcional do depoente, em relação ao setor público objeto da investigação; para obtenção de impunidade prévia, assegurada pela Justiça (especialmente por meio de liminares do Supremo Tribunal Federal - STF); para a exibição de chocantes crises de nervos, comportamentos disparatados e descontroles emocionais.
Sem dúvida alguma, em muitos destes itens o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato, em seu segundo depoimento à CPI dos Correios, na quarta- feira, conseguiu um primeiro lugar, especialmente no que diz respeito à alegação de desconhecimento de processos sob sua alçada funcional, o que levou parlamentares a ameaçá-lo de prisão e a desabafos como o do relator-adjunto da comissão, deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), que disse: "Não é possível que fiquemos aqui como paspalhos, ouvindo tanta mentira." Mas quanto ao descontrole patético Pizzolato foi até agora insuperável, quando em choro convulsivo fez a insólita declaração de que preferia a tortura física, o "pau-de-arara" à tortura psicológica permanente que estava vivendo com toda essa questão (arre!).
De qualquer forma, Pizzolato foi comoventemente convincente ao afirmar: "Tudo indica que eu fui o inocente útil." Disse ele que seguiu a orientação do então ministro-chefe da Secretaria da Comunicação de Governo, Luis Gushiken, e do então presidente do Banco do Brasil, Cássio Cassab, ao autorizar, em 2003, o "adiantamento" de recursos da Visanet (da qual o BB é sócio em 32%) para a agência DNA, do publicitário Marcos Valério de Souza. Referindose ao documento que assinara, autorizando o repasse, asseverou: "No caso da nota técnica, ele (Gushiken) disse que eu assinasse porque não havia nenhum problema. Eu entendi aquilo como uma ordem, porque eu não ia me confrontar com o ministro."
Reconheça-se a utilidade desse depoimento na comprovação das suspeitas - do relator da CPI dos Correios - de que o Banco do Brasil tivesse sido uma das fontes de abastecimento do valerioduto. Ligando os fatos: entre maio de 2003 e junho de 2004 o BB pagou R$ 73,8 milhões à DNA, pela propaganda do cartão Visa, "adiantado" - isto é, antes de as campanhas publicitárias terem sido aprovadas. A autorização desse "adiantamento" foi assinada por Pizzolato, por sua vez identificado como um dos beneficiários de saques em dinheiro das contas de Marcos Valério - que só em 2003 recebeu R$ 23,3 milhões da Visanet. Eis o roteiro do dinheiro suspeito: dos R$ 35 milhões depositados pela Visanet (por autorização de seu sócio BB) na conta da DNA, de Valério, que foram para um fundo de investimento do banco, R$ 10 milhões saíram para aplicação em CDBs no BMG. Tal aplicação serviu como garantia de empréstimo, de igual valor, do BMG à Rogério Tolentino & Associados, da qual Valério também é sócio, fazendo parte dos R$ 56 milhões que Valério afirma ter repassado para o PT e os partidos aliados, sob a ordem do ex-tesoureiro petista Delubio Soares. Talvez o ex-ministro Luis Gushiken tenha suas razões - ao negar que autorizou aquele "adiantamento" de R$ 23,3 milhões da Visanet à DNA, em 2003 - ao dizer que o ex-diretor e Marketing do Banco do Brasil "é confuso por natureza". Não deixou claro se tal confusão se refere mais à natureza daquelas operações ou a suas atuais explicações. De qualquer forma, o ex-ministro chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, e hoje chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), ainda está longe de demonstrar sua falta de envolvimento na "confusão" geral relacionada às fontes de abastecimento do valeriodutoou de outros eventuais mananciais de caixa 2 e "mensalão".
Talvez porque às vezes explicar é muito mais difícil do que fazer... Para tentar entender melhor as coisas, a CPI vai pedir uma acareação entre o ex-ministro e o ex-diretor do Banco do Brasil.