Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Editorial de O Estado de S Paulo O piloto sumiu


D ois dias depois do cruzado de esquerda que o PT desferiu contra a política econômica, um golpe muito mais potente acertou o presidente da República em cheio. Dessa vez, o ataque partiu de um ministro de Estado, o titular do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan - que a justo título Lula considera um dos mais competentes membros do seu Gabinete -, com a agravante de ter sido o direto desfechado numa entrevista concedida em Hong Kong, onde participa da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Furlan é um conhecido crítico das políticas monetária e cambial do governo. A combinação de juros altos e real valorizado, assegura, é um breve contra a exportação de produtos de maior valor agregado - o principal fator que define a qualidade da participação de cada país na arena do comércio internacional. Mas ficassem restritas a isso as afirmações do ministro, teria sido mais do mesmo - e não uma nova dor de cabeça, ou melhor, enxaqueca, para o presidente. Pois, credenciado por sua ampla e bem-sucedida experiência como empresário, Furlan acertou na veia do problema essencial deste governo: a falta de um chefe de governo.

É claro que ele não declarou explicitamente o que de há muito se tornou uma trivialidade ao alcance da visão de todos quantos têm olhos de ver: o despreparo de Lula para pilotar o Jumbo federal. Mas o que o ministro falou conduz inexoravelmente àquela constatação - expressa no título de um filme famoso Apertem os cintos que o piloto sumiu. Como explicar de outro modo a sua denúncia de que o governo está sem rumo? O governo não faz sinalizações, não traça cenários e objetivos, nem estabelece meios para atingi-los (o que, de fato, é uma impossibilidade, quando não se os têm).

Em conseqüência, Furlan identifica uma "sensação de desânimo", afetando as iniciativas da sociedade e decisões de pessoas e empresas. Pode haver algum exagero nesse diagnóstico, mas é inegável que uma certa apatia vem se disseminando entre os agentes econômicos, o que explica os números negativos da variação do PIB no terceiro trimestre do ano. De todo modo, o que há de mais importante a ressaltar na fala do ministro é que ela foi pública. Em desabafos privados ou em conversas com jornalistas para não serem divulgadas, não são propriamente raros os integrantes da equipe de Lula que confessam não saber para onde irá o governo em 2006.

Isso ainda não é tudo - como se fosse pouco. Passados 3/4 do seu mandato efetivo, ninguém há de discordar honestamente da avaliação de que o presidente não realizou nenhum projeto próprio, seu ou do PT. O forte da administração é a política econômica herdada do antecessor. Na área social, o governo Lula, depois do constrangedor fracasso do Fome Zero, estruturou e deu continuidade aos programas de transferência de renda oriundos de gestões anteriores, com o efeito colateral adverso de fazer do Bolsa-Família a essência de suas políticas sociais, numa clamorosa confusão entre o que é urgente e o que é importante.

Em suma, por desnudar o rei, ainda que não tivesse essa intenção, o ministro Luiz Fernando Furlan foi incomparavelmente mais contundente que a cúpula do PT ao vergastar o paloccismo. O que, por sua vez, aponta para um desmanche da era Lula. Ontem, numa entrevista ao jornal Valor, o ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner - uma exceção ao baixo nível do debate público no País hoje em dia -, disse que o presidente só buscará a reeleição "se tiver convicção absoluta de que fará mais do que fez no primeiro mandato". Não seja por isso. Dado o retrospecto, o pouco que fizer em um eventual segundo período já será um avanço. O problema de Lula, naturalmente, é outro.

A possibilidade de sair derrotado do Planalto - para quem já amargou três fracassos antes de chegar lá - há de lhe ser intolerável. Não são apenas as pesquisas que o ameaçam. Que tem ele a esperar de um partido que exige não apenas uma mudança radical na política econômica, mas ainda uma guinada à esquerda em matéria de alianças eleitorais? E logo quando a crise da corrupção alienou do presidente, ao que tudo indica definitivamente, a classe média que, atraída pelo Lulinha, paz e amor e pela imagem ética do seu partido, enfim resolveu dar uma chance aos dois - e hoje cora de arrependimento.

O GLOBO
O que Furlan disse


“O governo não faz sinalizações, não traça cenários, objetivos, nem estabelece meios para atingi-los”, disse o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, em mais uma crítica à gestão e à política econômica do governo Lula. “Há uma sensação geral de desânimo no país”, disse também, anteontem, em Hong Kong, onde participa de reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC). O ministro disse ter certeza, porém, de que o país vai superar o que chamou de onda de desânimo e defendeu a permanência de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda. Furlan, cujo desempenho no governo é elogiado pelo aumento das exportações, já criticou a excessiva valorização do real frente ao dólar, os juros altos e a burocracia que emperra a máquina e impede obras de infra-estrutura necessárias para aumentar a produção e as exportações.

Cada ministro atira para um lado

Aguinaldo Novo, Adauri Antunes Barbosa, Gerson Camarotti e Cristiane Junglut
SÃO PAULO e BRASÍLIA.

Acusado de manter uma política econômica recessiva, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, disse ontem que ficou preocupado com as críticas do colega do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e que vai telefonar para ele pedindo para “não perder o ânimo”. Em Hong Kong, onde participa de reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC), Furlan disse que o governo não tem objetivos nem metas e reclamou de uma “sensação geral de desânimo”. Já o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, não apenas apoiou Furlan como também a decisão do diretório nacional do PT, que no fim de semana cobrou mudanças na política econômica. É mais uma rodada de ataques que expõe divergências no ministério de Lula sobre a economia.

— Fiquei preocupado de o ministro Furlan se confessar um pouco desanimado. Vou pedir para não perder o ânimo, porque ele é um grande incentivador dos projetos que fizemos este ano — disse Palocci, atribuindo ao trabalho do colega e de sua equipe o aumento das exportações. — Ele é um ás de ouro deste governo.

Já o presidente do BNDES, Guido Mantega, reagiu dizendo que não faltam metas para o governo:

— Não concordo (com Furlan). Existem as metas. Essas metas já estão estabelecidas. É o planejamento de longo prazo que está sendo posto em prática. Basta ver os resultados. A indústria brasileira não crescia há quase dez anos. Nos últimos dois anos está crescendo a um ritmo ímpar, crescendo e gerando produtividade. Talvez o ministro Furlan esteja, digamos, um pouco decepcionado com o câmbio, porque para ele (o câmbio) é o motor do superávit comercial, uma tarefa dele. Mesmo assim ele está tendo êxito porque vamos superar US$ 40 bilhões este ano — disse Mantega, subordinado a Furlan.

Depois de Furlan disparar críticas de Hong Kong, ontem o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, no Palácio do Planalto, disse que o PT e a sociedade esperam um ritmo maior de crescimento da economia. E, para isso, acrescentou Marinho, o Comitê de Política Monetária (Copom) e o Conselho Monetário Nacional (CMN) precisam anunciar esta semana a queda da taxa básica de juros, a Selic, e a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo).

O presidente Lula, tentando aparentar bom humor, antes mesmo de ouvir perguntas sobre as declarações de Furlan, perguntou:

— Qual a fofoca do dia?

Marinho fez indiretamente a defesa de Furlan:

— O ministro referiu-se ao ânimo do mercado, da indústria, da economia. Temos de trabalhar em sintonia.

Mesmo afirmando que já tinha falado demais, Marinho disse que a decisão do PT de atacar a política econômica tinha o mesmo sentido das declarações de Furlan:

— Não tem problema com a decisão do PT. Não vamos fazer marola com isso. A resolução do PT está em sintonia com o que acabei de dizer. Podemos crescer à ordem de 5% ao ano e isso depende das decisões que serão tomadas agora.

Lula foi informado do teor das declarações de Furlan na segunda-feira e não gostou. O ministro é um dos mais elogiados pelo próprio Lula. De Hong Kong, ele telefonou ao presidente para explicar as declarações. Conversou com o secretário de Imprensa da Presidência, André Singer, dizendo que suas declarações foram tiradas de contexto e que isso modificara a essência do seu pensamento.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), atribuiu as declarações de Furlan às angústias do setor produtivo:

— Furlan expressa o setor produtivo, que neste momento mostra-se angustiado com a desaceleração da economia. Essa é a angústia de quem se preocupa com o crescimento do país — minimizou.

Mas, no Congresso, as declarações de Furlan foram vistas pela oposição como um sinal de desgoverno e falta de autoridade presidencial.

— O Furlan é um bom ministro. Cumpre objetivos. É um oásis de competência nesse deserto de idéias petistas. Agora, essas declarações revelam o desgoverno. Isso mostra que o presidente Lula não comanda o governo. Esse tipo de debate só poderia acontecer, no máximo, para dentro. Nunca para fora — disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).

— O desalento a que Furlan se refere é o produto da falta de incentivo, de infra-estrutura, de proposta para o país — afirmou o líder do PFL, senador José Agripino Maia (RN).

Furlan, em nota, diz ser o mais otimista

Em nota, Furlan disse que em nenhum momento afirmou que o governo não tem metas ou objetivos para 2006. “Perguntado se o governo não estabeleceria metas para o próximo ano, disse que na reunião ministerial de 19 de dezembro seriam apresentados os números para 2006, mas que se dependesse somente de mim, haveria também uma meta de crescimento”, escreveu Furlan. Ele acrescenta que na entrevista afirmara que o governo trabalha “com as sinalizações do mercado, em vez de traçarmos os cenários que estimulem as empresas e a sociedade, o que é nossa obrigação. Afirmei que era preciso que fossem sinalizados os objetivos e os instrumentos para alcançá-los”.

Furlan explicou ainda que ao ser perguntado se o Brasil realmente vem enfrentando um período de desânimo e se o setor produtivo também compartilha dessa percepção, diz ter afirmado que “muitas empresas fizeram cenários negativos de câmbio e juros, provocando uma sensação de desânimo que afetava as iniciativas, novos investimentos no país e o consumo. Complementei que, apesar disso, continuava sendo o ministro mais otimista da Esplanada”.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, disse que espera mudanças profundas na política monetária e fiscal ano que vem para que o país cresça de forma sustentada.

— A realidade mostra que há necessidade de mudanças. Agora, ninguém pode desanimar, deixar de estar na luta — disse Skaf.

COLABOROU Wagner Gomes, do Globo Online

Haja fogo amigo

É fogo amigo de todos os lados, já reclamaram líderes petistas, apesar de o presidente Lula tentar culpar a oposição pelas crises provocadas por disputas em seu governo e pelas denúncias de corrupção em apuração por CPIs no Congresso. À condução da política econômica os ataques são cíclicos, e cada vez mais intensos, partindo de dentro do governo. Do vice-presidente José Alencar à chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, à nova cúpula do PT. E as críticas aumentaram nas últimas semanas, justamente no momento em que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, estava fragilizado por causa das denúncias de corrupção envolvendo ex-assessores da época em que era prefeito de Ribeirão Preto.

Dilma chamou de rudimentar a proposta de ajuste fiscal de longo prazo elaborada pela área econômica. Paulo Bernardo, do Planejamento, reagiu. Palocci, irritado tanto com as denúncias sobre Ribeirão Preto quanto com os ataques da colega, pediu demissão ao presidente Lula, que teve reações contraditórias no episódio. Ele fora o primeiro a incentivar o debate no próprio governo, sinalizando que era preciso liberar todo o dinheiro previsto para investimentos no Orçamento e tentar reduzir o superávit primário. Depois, no tiroteio, cobrou o fim das divergências públicas, fazendo ora elogios a Palocci, ora a Dilma. Convenceu o ministro da Fazenda a ficar no cargo, conseguindo uma trégua entre Palocci e a chefe da Casa Civil, pelo menos publicamente. Mas já deixou claro que vai liberar mais a gastança em 2006, ano eleitoral, tendo decidido ontem mesmo que o salário-mínimo deverá subir para pelo menos R$ 340.

Quando estava aparentemente sob controle o estranhamento entre Palocci e Dilma, vem o diretório nacional do PT, no fim de semana passado, e aprova um documento cobrando mudanças na política econômica e a redução do superávit primário. O documento mostrou que o PT está não apenas rachado mas também cada vez mais distante do presidente Lula, tentando agradar às suas antigas bases, como as centrais sindicais e os movimentos populares. O Planalto evitou fazer eco aos petardos do PT, mas ministros e líderes petistas reagiram chamando de equivocada e inacreditável a decisão do partido.

Três dias depois, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, criticou a falta de objetivos do governo e disse que há um desânimo geral no país. De novo reagiram outros ministros e até o presidente do BNDES, Guido Mantega, subordinado a Furlan. Para agravar a crise, a oposição não tem precisado mover uma palha.




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