Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 13, 2005

Editorial da Folha de S Paulo FANTASIA GOLPISTA

Ao deixar a 29ª Cúpula do Mercosul, realizada em Montevidéu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não age como seu colega venezuelano Hugo Chávez, mas que a oposição brasileira se comporta como a Fedecámaras, instituição empresarial do país vizinho que participou da orquestração de um golpe contra o presidente, em 2002. Nas palavras de Lula, setores oposicionistas estariam "tentando fazer golpismo" contra ele no Brasil.
A tese de que as denúncias de corrupção envolvendo o governo e o PT seriam peças de uma conspiração golpista já havia surgido no início da crise. Era tão fantasiosa quanto atraente para os que preferiam "explicar" os fatos de maneira esquemática e desconectada da realidade.
Hoje seria preciso um grau de alheamento descomunal para não perceber que a crise foi gerada pelo próprio governo, pelo PT e por seus aliados, que se enredaram numa trama de corrupção cujas características e dimensões poderiam perfeitamente estimular a oposição a se empenhar na abertura de um processo de impeachment do presidente. E ressalte-se que o impeachment não é uma aventura golpista, mas um instituto previsto pela Constituição.
Por cálculo político e conveniência, os adversários políticos de Lula têm, no entanto, preferido tratá-lo com benevolência. Visam ao desgaste da imagem do governo na expectativa de colher frutos nas eleições de 2006.
Se o presidente considera que há tentativas de golpe em cena, deveria apontar os conspiradores e o modo como pretendem removê-lo do poder. Mas é difícil crer que o primeiro mandatário se sinta realmente ameaçado por uma movimentação dessa natureza -antes de tudo porque ela não existe. Ao que tudo indica, a declaração de Montevidéu se inscreve numa estratégia de campanha.
De cima do palanque do qual, desde a posse, raras vezes desceu, Lula vai usando sua capacidade de comunicação para difundir sua fantástica versão dos acontecimentos: o "mensalão" não existiu, o ex-ministro José Dirceu foi injustiçado e a oposição é golpista. É um caso em que o título da peça de Friedrich Dürrenmatt mais uma vez se aplica: seria cômico se não fosse trágico.

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