Aos pés da Santa Cruz
DORA KRAMER
Jobim aceita ser candidato, mas exige do PMDB unidade e cancelamento das prévias Está decidido: se o PMDB cancelar as prévias marcadas para o dia 5 de março e garantir a legenda sem disputas internas, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, deixa o Judiciário em abril e assume a candidatura à Presidência da República.
Soberbo em sua condição de magistrado, Jobim transfere essa conduta às lides político-partidárias e não aceita concorrer com Anthony Garotinho e Germano Rigotto, os postulantes pemedebistas já declarados.
Só vai à luta se, daqui até meados de fevereiro, as alas oposicionista e governista conseguirem se entender em torno de seu nome e o declararem candidato de consenso.
Seja para mais à frente ocupar a vaga de vice na chapa liderada pelo presidente Luiz Inácio da Silva, se Lula recuperar condições eleitorais nas pesquisas, seja para disputar mesmo o primeiro turno e, em caso de insucesso, negociar apoio ao finalista mais bem posto. Os governistas não descartam nem a adesão aos tucanos.
A hipótese da candidatura de Jobim surgiu no fim do ano passado, ainda de forma muito incipiente, nas fileiras oposicionistas do PMDB, pelas mãos do deputado Eliseu Padilha.
O grupo não via com grande simpatia essa possibilidade, pois sempre preferiu uma aliança com o PSDB.
Mas a vontade majoritária do partido pela candidatura própria, somada à antipatia pela opção Garotinho, foi tornando os oposicionistas mais permeáveis ao nome de Jobim, cuja imagem a ser fixada na campanha seria a da reserva moral e da afirmação de autoridade em contraponto ao cenário geral de desmazelo desses dois quesitos.
Com a queda de popularidade de Lula - avaliada internamente como irreversível -, os governistas também foram aderindo a Nelson Jobim. Hoje, um dos seus mais firmes defensores é também um dos mais lulistas entre todos os pemedebistas: o senador José Sarney.
Ele está junto com o presidente do Senado na articulação pelo cancelamento das prévias, por enquanto mascarada numa tentativa de adiamento de 5 para 31 de março.
Argumentam que, ganhando tempo, conseguem convencer Nelson Jobim a disputar internamente com os outros pré-candidatos.
Trata-se, porém, de um mero jogo de aparências destinado a manter vivas as esperanças de Anthony Garotinho, de forma a que ele não faça como César Maia no PFL, e não desista antes do tempo reduzindo o cacife do partido frente aos possíveis aliados.
Em português claro, querem usar Garotinho enquanto ele for útil e descartá-lo depois, por isso mantêm o faz-de-conta das prévias adiadas.
A verdade é que Nelson Jobim não aceita a disputa interna em data alguma.
Quer a unção como candidato oficial do partido porque não considera condizente com sua condição de presidente de um Poder a sujeição à concorrência dentro de um partido e, pior, ao risco de perder.
Pirão primeiro
O debate em torno do fim ou da manutenção da regra de coligações regionais vinculadas às alianças partidárias nacionais - a chamada verticalização - deixa de lado a questão do princípio.
Os partidos não discutem se a tese é correta ou incorreta do ponto de vista do sistema representativo; só querem saber de pesar e medir vantagens e desvantagens eleitorais de ambas as hipóteses.
Daí a dificuldade de o assunto ir à votação na Câmara, daí a probabilidade de a conta somar zero no final.
O eleitorado, que fica à margem da discussão, pode votar como quiser, porque a vinculação diz respeito às alianças, o voto pode ser dado a candidatos de partidos diferentes para presidente, governador, deputado e senador.
Ao fim e ao cabo, é isso que interessa.
Esquerda volver
Se não tiver dois discursos - quiçá três ou quatro, um para cada tipo de público -, o presidente Lula retomará na campanha eleitoral o tom ideológico temporariamente arquivado na eleição de 2002 a conselho de Duda Mendonça.
Lá, o candidato do PT precisava conquistar eleitores de todos os matizes. Agora, o setor dito intermediário (social e politicamente falando) foi perdido e é de difícil recuperação.
Sobram, então, os beneficiados pelo assistencialismo e os movidos pela luta ideológica. Boa parte destes estiveram reunidos com o presidente na quarta-feira à noite, na cerimônia de posse do deputado Eduardo Campos na presidência do PSB, onde a tônica dos pronunciamentos foi a necessidade de impedir "a direita" de retomar o poder.
Independentemente de crise, de denúncias e de punições por corrupção, as manifestações foram no sentido da defesa da trincheira esquerdista simbolizada na figura de Lula, sendo ele ou não candidato à reeleição.
Aliás, à exceção do escritor Ariano Suassuna - um reeleitor assumido -, ninguém fez referência específica à candidatura a um novo mandato. Cuidou-se de modo preponderante de demarcar o terreno dos empenhados em barrar a todo custo o "retrocesso".