Passados quase 40 anos, o Brasil e o mundo de 1967 são relâmpagos na memória. O general Artur da Costa e Silva oscilando entre a preguiça e a boçalidade na Presidência da República. A perigosa musculatura do regime militar esculpindo a face horrível. Jardel Filho enfiando um revólver na boca em "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Platéias nos teatros "Dois Perdidos numa Noite Suja", de Plínio Marcos. No cinema e no teatro, dois mitos mostravam a cara.
Catherine Deneuve transpirando sensualidade nas telas do mundo como a adúltera de "Bela da Tarde", de Luiz Buñuel. Muitos DKWs e Aero-Willys nas ruas do Rio. O guerrilheiro Ernesto Che Guevara vagando nas selvas da Bolívia, a caminho da morte e da eternidade, congelada no pai de todos os pôsteres.
Neste 2005, aqueles carros não existem mais, a peça e o filme envelheceram, morreram quase todos os personagens. Restaram a beleza atemporal de Catherine e o processo de Iaciara. Acaba de completar 38 anos sem ter saído da primeira instância. Como um bebê condenado pelo destino a jamais ultrapassar a primeira infância . Muitos juízes o examinaram. Alguns morreram há bastante tempo. A papelada está onde sempre esteve.
No começo de dezembro, o Conselho Nacional de Justiça, órgão incumbido do controle externo do Poder Judiciário, foi acionado pelo advogado goiano Wilson Sabino, que há 18 anos representa uma das partes. (Nos 20 anos anteriores, vários bacharéis entraram na história). Na representação, Sabino informou que a audiência mais recente data de março de 2004. E criticou a leniência dos magistrados que passaram pela cidade sem providenciar um desfecho para a pendência.
O CNJ comunicou ao Tribunal de Justiça de Goiás que a história terá de ser julgada (em primeira instância) em 60 dias. É pouco tempo, sugeriu a resposta do tribunal: no momento, Iaciara está sem juiz. Na tréplica, os conselheiros exigiram que algum magistrado fosse imediatamente deslocado para a comarca acéfala e decidisse a questão. Em dois meses.
Se consumada, será uma façanha e tanto. Ainda que se materialize, o processo sobreviverá. Os supostos prejudicados pela decisão do juiz que ainda não chegou a Iaciara poderão recorrer a três instâncias: o próprio Tribunal de Justiça de Goiás, o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. É provável que a papelada chegue aos 40 anos com boa saúde. O CNJ rechaça a previsão. Promete acompanhar o caso de perto e apressar-lhe o epílogo.
"Isso é uma aberração", espanta-se Paulo Ribeiro, relator da representação e corregedor do conselho. Certamente não é a única. E dificilmente será a mais antiga. No Brasil profundo, processos ficam adormecidos décadas a fio. Em todas as comarcas, pendências descansam nas gavetas de magistrados sem pressa. Não se perturbam com a evidência de que justiça lenta é sempre injusta.
Numa pesquisa recente, 48,9% dos juízes brasileiros - quase metade - qualificaram de "ruim ou "muito ruim" o desempenho do Judiciário no quesito "agilidade". Só 9,9% optaram pelo "bom" ou "muito bom".
Algum integrante do grupo, minoritário mas de bom tamanho, merece ser juiz em Iaciara.