Há pouco mais de um mês escrevi nesta Folha que o governo Lula terminara, mas, ainda há uma semana, acreditava que não haveria impeachment. Entretanto os últimos acontecimentos a partir do depoimento do deputado José Dirceu na Comissão de Ética, a reação cada vez mais indignada da sociedade perante tudo o que está acontecendo e o renascimento da política depois de dois anos e meio de tentativa de reduzi-la a um sistema de compra e venda me levaram a rever minha opinião. Ainda que ninguém possa prever o que vai acontecer, parece-me cada vez mais claro que Lula não tem mais condições de permanecer no Planalto e que o impeachment é inevitável.
A sociedade civil se torna incontrastável quando, tomada de indignação, passa a ter uma só voz. É o que acontece no Brasil |
Não acreditava no impeachment por duas razões. Primeiro, porque a instituição da Presidência da República é muito forte no Brasil. Apesar de toda a irreverência -senão desrespeito- dos brasileiros pelos políticos, aquele que está investido desse cargo merece dos cidadãos e dos demais políticos um respeito reverencial. É justo que seja assim, dado o enorme poder e as imensas responsabilidades que esse homem ou mulher detém. Por isso, o deputado Roberto Jefferson, cujas denúncias deram início à crise, procurou preservar a figura do presidente. Também por isso os principais implicados no escândalo procuram deixar o presidente de lado.
Entretanto estamos ante a maior crise moral da história brasileira. Não me lembro de nenhum momento, nem mesmo na crise Collor, em que tenha havido um processo centralizado de captação de recursos de empresas interessadas em obter favores do governo com o fim não só de financiar campanhas municipais do próprio partido em todo o país mas também de transferir recursos para outras legendas e, portanto, subornar seus representantes.
E todo esse esquema inédito na política brasileira gira em torno do Planalto e da presidência do PT, envolve diretamente os mais diretos subordinados do presidente da República. Por isso, não é surpreendente que um senador sereno e prudente como é Tasso Jereissati perca a paciência e, diante da frase arrogante do presidente ("Se eu for [candidato], com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez, porque o povo vai querer"), declare: "Presidente, chega de fingir que não tem nada a ver com isso".
Não acreditava também no impeachment porque é uma decisão grave e arriscada do ponto de vista da oposição. Ainda que o envolvimento do presidente vá se tornando cada vez mais claro, existe sempre a possibilidade de, uma vez iniciado, o processo de impeachment não chegar ao afastamento. E, nesse caso, o presidente veria sua candidatura à reeleição, cuja probabilidade de êxito parece hoje cada vez mais longínqua, renascer. Por isso, é compreensível que a oposição considere mais conveniente esperar pelas eleições.
Entretanto a dinâmica da crise é muito poderosa e o que hoje pode parecer estrategicamente melhor para a oposição, amanhã pode deixar de sê-lo. A variável fundamental, aqui, é a posição da sociedade civil -ou seja, de todos aqueles que, fora do Estado, se interessam pelo processo político brasileiro.
Nas democracias, embora o poder seja formalmente do povo, na prática, está com a sociedade civil, que dele se diferencia porque, no povo, cada cidadão tem um voto, na sociedade civil, o peso de cada cidadão depende de seu conhecimento, de seu dinheiro e de sua capacidade de comunicação e organização.
No Brasil, foi essa sociedade civil que derrubou o regime autoritário. Foi também ela que levou ao impeachment de Collor. Sua presença política é permanente na vida das nações, mas ela só se torna poderosa e incontrastável quando, tomada de indignação, ela, que tem muitas vozes, passa a ter uma única voz. É o que, mais uma vez, está acontecendo hoje no Brasil.
É verdade que, até agora, as pesquisas de opinião pública não revelaram uma queda de popularidade muito grande por parte do presidente Lula. Não nos enganemos, porém. A sociedade civil é poderosa porque é formadora de opinião. Graças a uma mídia livre e atuante como temos, em que essa sociedade civil está presente por meio dos seus jornalistas e dos cidadãos que de alguma forma por meio dela se manifestam, o conhecimento da corrupção generalizada em que se envolveu a cúpula do governo e do PT e a indignação em relação a ela aumentam todos os dias, alcançando todos os cidadãos.
Nunca ninguém imaginou que pudesse acontecer algo semelhante ao Brasil. Entretanto, os fatos estão aí, e a reação da sociedade civil é cada vez mais clara. Os políticos saberão responder a isso? Estou convencido de que sim. Como bem observou Gilberto de Mello Kujawski ("O Estado de S. Paulo", 4/8), o que estamos vendo é a política, que o governo e o partido hegemônico haviam tentado neutralizar, renascer por meio da voz de notáveis parlamentares.
Não é possível garantir, mas o provável é que esses políticos ouvirão a voz da sociedade civil, assumirão os riscos envolvidos e o processo de impeachment será desencadeado.
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