domingo, agosto 14, 2005

LUÍS NASSIF Uma questão de grandeza

folha de s paulo

  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sempre três passos atrás da crise. Seu pronunciamento na sexta-feira confirmou a regra. Não houve um pedido de desculpas pelos seus erros, mas dos outros -seja lá quem forem os outros. Está se chegando a uma situação de quase não-retorno, na qual dois fatos poderão rachar o país. O primeiro, se a oposição insistir no impeachment. O segundo, se Lula insistir na reeleição.
Até algum tempo atrás, a proposta poderia ser interpretada como golpe. Depois das últimas rodadas, é a única porta de saída para que Lula contenha o furacão, preserve o PT e aproveite a última oportunidade de salvar sua biografia: conduzir o país em paz, como um magistrado, até as próximas eleições, de acordo com a fórmula Jefferson Peres, de um governo de coalizão.
Há uma luta fratricida no PT, outra no Congresso, outra de Lula com a opinião pública midiática. O governo consegue se enrolar até em episódios insignificantes, como o do suposto empréstimo do PT a Lula. O que fará, agora que ingressa no terreno espinhoso de explicar operações "offshore"? Há um sem-número de episódios passíveis de exploração jornalística, especialmente agora quando há um exército em debandada, nesse salve-se-quem-puder deprimente, no qual o único personagem digno até agora tem sido Delúbio Soares.
Dos demais, o que se vê são episódios vergonhosos de fuga à responsabilidade, como na inacreditável confissão de ingenuidade de um galo velho como Duda Mendonça. O marqueteiro vitorioso, o homem que serviu de Paulo Maluf a Lula, que foi remunerado pelo esquema Pau-Brasil e pelo esquema Delúbio, nunca ouviu falar de empresas "offshore" nem sabe como faz para trazer o dinheiro para o país. Parece a virgem que foi estuprada pelo tarado três dias seguidos, na mesma hora e lugar.

Realizando o prejuízo
Lula poderá continuar correndo atrás dos fatos e assistir à escalada de denúncias levando de roldão uma a uma as vigas que sustentam o seu governo. Assistirá a ex-amigos delatando-se mutuamente, a ex-aliados se vingando das promessas não cumpridas de financiamentos e ao próprio desaparecimento do PT.
No jogo, como na política, a pior estratégia é não saber a hora de sair, de "realizar o prejuízo", como se diz no mercado. Lula tentou dobrar algumas vezes a aposta e ampliou seu prejuízo. Primeiro, deu o famoso cheque em branco para Roberto Jefferson, que foi protestado em poucos dias. Depois, pagou para ver, ordenando tardiamente que se apurasse tudo, na esperança de que as práticas de financiamento de campanha da oposição também fossem desnudadas. Só que as denúncias que estavam no começo da fila eram as que o atingiam. O resultado foi a debandada do seu exército, um tiro no pé, e não necessariamente por inocência da oposição.
Há muitos e muitos anos, desde a CPI dos Precatórios, venho denunciando o sistema "offshore". Enquanto se mantinha a burocracia cambial para as operações legítimas, a partir de 1994 se escancaram as saídas cambiais ilegítimas. Havia sinais evidentes de que serviam desde o caixa dois convencional até o crime organizado, passando por financiamentos de campanha, corrupção política, comércio de jogadores de futebol, aplicações dos grandes investidores. Os golpes do Banco Santos -sabe-se agora- começaram no mínimo em 1999. Os fiscais do BC viam aquela dinheirama passar sob seus narizes e nada podiam fazer porque a legislação autorizava.
Se quiser, Lula tem a chance histórica de passar o país a limpo. Renuncie à reeleição, monte um ministério de coalizão, com nomes de envergadura, que ajudem na transição. E abra para opinião pública as investigações do CD do Banestado, com discernimento, para separar operações legítimas.
Será a única chance de chegar ao final do ano que vem presidente e, depois das eleições, um ex-presidente que deixou um legado e preservou um cacife moral, até para continuar liderando parte do eleitorado.

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