O GLOBO
Não tenho notícia de pesquisa confiável que revele a nota que os brasileiros estão dando ao desempenho do deputado Roberto Jefferson.
Sobre o PT e o Palácio do Planalto não há muita dúvida: as revelações de cada dia estão sendo recebidas com a seriedade que merecem. Discutem-se apenas as conseqüências. Dá para chegar ao fim do mandato? Não se sabe ao certo, mas o PSDB anda rindo de orelha a orelha.
Em resumo, como dizem aqueles moços bem armados que nos abordam em ruas escuras, nessa o governo "perdeu".
Nos assaltos, o verbo é intransitivo. Na política, é preciso ficar claro quem terá ganho. Deixando de lado o destino do PT, pode-se sonhar com um cenário em que o Congresso e os partidos sobreviventes empunharão a tocha da reforma política e — combinando espírito público com instinto de sobrevivência — reconquistarão a confiança e as esperanças do pessoal que vota e elege.
É sonho que não acaba mais, mas já aconteceu, em outros tempos e outras praias — e até na nossa.
Seja como for, já é possível e necessário deixar algumas coisas claramente definidas. Questões a longo prazo menores, como o papel do deputado Roberto Jefferson. Mantenha ou perca o mandato, ele usa insistentemente a retórica de quem pretende ser o herói da novela toda. Com algum sucesso. Já foram vistos na TV parlamentares simbolicamente beijando-lhe as mãos: ele seria não apenas eficaz matador de dragões como aceitável condutor da depuração do sistema político. É duro de engolir.
Convenhamos: Jefferson parece ter suficiente bala na agulha para desmoralizar a administração petista, podendo até escolher uma das ofertas do cardápio: com Lula ou sem Lula. Com um pedaço do PT ou sem PT algum.
Mas esse é seu limite, e implica auto-imolação com justa causa. Nem todos pensam assim. Na semana passada, quando depôs na CPI do Mensalão, o seu fã-clube no baixo clero (ajudado por alguns cônegos de memória fraca) tratava-o como um cruzado da redenção moral do Congresso e da classe política.
É passar da conta. Primeiro, Jefferson é réu confesso de recebimento de dinheiro sujo. Segundo, a sua concepção da ética na política pode ser definida por sua defesa insistente — até hoje — do falecido governo Collor.
Jefferson finge esquecer que a defesa de Collor representa adesão consciente ao espetacular trambique da Operação Uruguai e de todos os atos de chantagem e corrupção que desmontaram o governo Collor. Não é culpa do Congresso nem do povo que a Procuradoria-Geral da República tenha produzido um processo inepto contra o ex-presidente no STF.
Em seus cinco minutos de glória atuais, Jefferson repetidamente insiste na honestidade do governo Collor e nas virtudes de seu ídolo político. Espera-se que esteja confiando demais na amnésia nacional. Que honestidade é essa, que obrigou o principal articulador do trambique a fugir para a Ásia, onde foi capturado — para ser mais tarde assassinado em Alagoas, num massacre nunca esclarecido? Esse é o nível do pessoal que o carrasco do atual governo achava adequado para governar o Brasil. Gosto não se discute. Mas gosto também define quem gosta.
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