terça-feira, agosto 09, 2005

Arnaldo Jabor Hiroshima: início da guerra do século XXI

O GLOBO

Eu ia escrever sobre as bombas da CPI, as bombas de lama que caem sobre a população brasileira, mas não agüento mais carecas, delúbios e dirceus explodindo no ar. Além disso, cumpro a tradição, pois todo ano eu escrevo sobre Hiroshima e Nagasaki, nesta semana de agosto. Não podemos esquecer esses fogos de artifício.

Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século XX, dando conta de contradições ainda do século XIX, o espetáculo de Hiroshima marca o início da guerra do século XXI, que tem sua rima cruzada, sua resposta invertida na destruição do WTC em 2001. Auschwitz e Treblinka ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, mas Hiroshima inaugura a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo. O que mais impressiona em Hiroshima é a eficiência, sem trens de gado humano, a morte "on delivery", "fast", "clean", anglo-saxônica. A bomba americana foi uma "vitória da ciência". Hiroshima e Nagasaki dão inicio à guerra "limpa", do alto, prefigurando Guerra do Golfo, Afeganistão e Iraque 2.

Os nazista eram loucos, matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a Humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da "Razão".

Na luta pela democracia, rasparam da face da terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário: "São animais cruéis, obstinados, traidores." Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes".

Enquanto os burocratas alemães contavam os dentes de ouro e óculos que sobraram nos campos, a bomba A foi rápida e eficiente como um detergente, um mata-baratas.

Ainda hoje é fascinante ver as racionalizações que a América militar inventou para justificar seu crime nuclear. Truman escreveu: "Eu queria nossos garotos de volta ("our kids") e ordenei o ataque para acelerar essa volta". Diziam também que Hitler estava perto de conseguir a bomba, o que é mentira. A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador Hirohito e a monarquia. Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam também testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado!!... No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!..."

Além disso, os americanos tinham de se vingar de Pearl Harbour, de surpresa, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava uma nova guerra, a Guerra Fria além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de potência, som e luz, uma superprodução em cores que enfeitasse a nova era do Império. A alegria mundial sufocou o horror. Até moda a bomba gerou — lembro de minha mãe com coques altos chamados de penteado "Bomba A." O holocausto sujou para sempre o nome dos alemães, mas Hiroshima soa quase como uma catástrofe natural, "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e da Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor e vitória... Era o início de uma era de prosperidade e esperança na América, dos musicais de Hollywood, pois o Eixo do mal estava vencido e derretido. Naquele ambiente mundial, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas. Só restavam o desalento, o niilismo, a literatura do absurdo em meio às ruínas. A euforia americana avança até 1949, quando a bomba H soviética acaba com a festa, instilando a paranóia nacional que vai crescer muito em 1957, quando sobe o "Sputnik" — eu estava lá: parecia um 11 de setembro.

Escrevo isso porque vivemos a era inaugurada por Hiroshima: um tempo em que a morte, ou melhor, o suicídio da Humanidade virou uma escolha político-militar. Os computadores do Pentágono oscilam na possibilidade estratégica: valerá ou não a pena continuar atômicos? Sim. Tanto é que estão recauchutando dez mil bombas "velhas", para que rejuvenesçam e durem mais. Podem destruir o mundo 40 vezes, o que tira dos homens o mistério, o destino desconhecido regido por deuses, e obviamente, desestimula qualquer esperança de razão, projeto, cultura. O holocausto ainda tinha o desejo sinistro de produzir um "sentido" para a matança, um futuro milênio ariano.

Com Hiroshima, inaugurou?se a "guerra preventiva" de hoje. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado a máquina americana comandada pela lógica de um turbo-capitalismo que raspará qualquer obstáculo a seu desejo. Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil, graças à América também. Um dia eles chegarão às bombas nucleares, principalmente no Paquistão.

Não há mais objetivos ideológicos ou humanos no comando. No lado ocidental, quem mandam são as Coisas. A fim de proteger a lógica do petróleo, do poder de controle, de paranóia antiterrorismo, qualquer arrasamento de terreno será possível. Sem o humano no comando supremo, as bombas desejam explodir. A loucura americana — encarnada pelo embaixador das Coisas, o Bush — está mais exposta. O avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem — "Enola Gay" — esse gesto de carinho batizou de fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio que exterminou 40 mil crianças em 15 segundos.

Estamos assim: de um lado, a Coisa. Do outro, Alá. A pulsão de morte e o desejo de mercado se encontraram finalmente. Quem vai controlar?

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