O que será do PT? A sucessão de erros da cúpula do partido e do governo Luiz Inácio Lula da Silva já redundou no esfacelamento da credibilidade e do alegado patrimônio ético da legenda, criando uma situação que deverá provocar mudanças significativas no próprio sistema político-partidário do país.
Terminaram por se materializar os temores manifestados por alguns cardeais petistas acerca de um fracasso histórico das "forças democráticas de esquerda" recém-chegadas ao poder. Muitos justificaram a opção por alianças e diretrizes econômicas conservadoras justamente por entender que esse seria o caminho necessário para evitar uma "desestabilização" do governo Lula. O fiasco, no entanto, consumou-se, não por obra de uma conspiração das "elites" -como alguns ainda fantasiam-, e sim em decorrência dos equívocos cometidos pela casta responsável pela arquitetura e administração do projeto de poder do partido.
Encastelado na direção do PT, o chamado Campo Majoritário foi o artífice da derrota. A tendência, que é sintetizada pelo deputado José Dirceu, nas funções de formulador e operador político, e por Lula, no papel de animador de audiências, acreditou que seria possível comprar a escumalha a que se juntou e apropriar-se de estruturas e fundos públicos para consolidar uma posição duradoura de domínio do Estado.
Não contavam os aprendizes de feiticeiros, em sua arrogância de suposta "vanguarda" política, que, em meio à consecução do plano, desavenças características de associações mafiosas viessem a implodir prematuramente o esquema. Assiste-se agora a um constrangedor corre-corre em que cada um procura salvar sua própria pele, ora apontando para bodes expiatórios, ora alegando desconhecer os ilícitos, ora apresentando mentiras infantis.
Aqueles que acompanham o caótico processo em curso no partido não têm dúvida de que haverá uma cisão. A chamada esquerda petista, alijada do poder pelo grupo de Dirceu e Lula, ou deixa a legenda, para se juntar aos que dela foram anteriormente expurgados, ou conquistam o controle da agremiação e dela tentam expulsar seus antigos controladores.
Por ora, o quadro é de crise de autoridade. Nem o Campo Majoritário nem as alas de esquerda detêm efetivamente o poder. O jogo partidário deverá ser definido -ou o caos definitivamente triunfará- por ocasião das decisões internas que serão tomadas no próximo mês de setembro. O mais provável é que ambos os lados procurem se manter no partido. Se nutrem ambições eleitorais, será difícil que venham a abrir mão do generoso horário gratuito de rádio e TV a que faz jus a legenda. Mas não se sabe nem mesmo se o PT vai se manter como partido, pois as transgressões cometidas podem levar à cassação de seu registro.
Certo é que o país já perdeu uma referência ética oposicionista e ganhou um governo medíocre, enredado num incrível esquema de corrupção. O vazio representado pela subtração do antigo PT da cena política e a pulverização das forças de esquerda devem acarretar um rearranjo cujas características e dimensões ainda estão por definir.
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