domingo, agosto 14, 2005

CLÓVIS ROSSI O elogio da mediocridade

FOLHA DE S PAULO

 SÃO PAULO - Além de pobre politicamente, o discurso de sexta-feira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contém um segundo pecado mortal: o elogio da mediocridade.
Refiro-me a seu constante auto-elogio a respeito da criação de empregos, 104 mil por mês, na média dos seus 30 meses de governo, ou 14 vezes mais que a média dos anos 90. Mesmo que os dados estejam corretos e não sejam mais um caixa dois desse governo cheio de truques, ainda assim é um desempenho medíocre.
O metro para julgar a mediocridade, aliás, é fornecido pelo próprio Lula, o candidato de 2002. Lula dizia, então, que era preciso criar 10 milhões de empregos no período presidencial que se iniciaria em 2003. Dez milhões em quatro anos dá 2,5 milhões por ano ou 208 mil por mês.
Se estão sendo criados apenas 104 mil/mês, tem-se, portanto, que apenas a metade das necessidades do país estão sendo cobertas.
Se seu time de futebol, depois de 30 rodadas, tivesse conquistado apenas metade dos pontos em jogo, você estaria orgulhoso ou iria para as arquibancadas gritar "burro, burro, burro" para o técnico?
Se você, empresário, cumprisse apenas metade das metas necessárias para a boa saúde da empresa, já não estaria às portas da falência?
Se você, estudante de direito, tivesse terminado o curso mas sido reprovado no exame da Ordem, estaria orgulhoso ou desempregado?
Se você, assalariado, fizesse apenas a metade de suas tarefas, continuaria no emprego?
O presidente orgulha-se dos resultados medíocres de seu período porque quer estabelecer como paradigma a gestão Fernando Henrique Cardoso. É um direito seu ter, como diz a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), um caso de amor/ódio mal resolvido com o tucanato (ou mais especificamente com FHC).
Mas o país rejeitou esse paradigma por dois terços dos votos em 2002. Votou pela mudança. Ganhou a mediocridade. Orgulhosa mediocridade.

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