Anota divulgada ontem pela Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores derrapa nas habituais inconsistências, mas representa um passo em relação ao decepcionante pronunciamento do presidente Lula e aponta, ainda que de forma tímida, para uma nova configuração de forças dentro da legenda.
A resolução apresenta pela primeira vez um pedido formal de desculpas à nação. Apesar disso, defende "uma ampla reforma política", com fidelidade partidária rigorosa, financiamento público e redução dos custos de campanhas.
Sem entrar no mérito do conteúdo das propostas, não faz sentido que o PT venha agora assumir a posição de vítima de um sistema que ajudou a corromper. Mais que tergiversações, o que se espera da nova direção é que puna os responsáveis pela improbidade que tomou conta do partido.
O texto apresenta, contudo, o primeiro sinal de que o grupo comandado pelo deputado José Dirceu, que hoje detém cerca de 70% dos postos de comando, começa a perder terreno. É o que se nota no trecho em defesa do fim dos relacionamentos informais entre governo e partido, que favoreceriam a manipulação das instâncias partidárias "por dirigentes com mais acesso ao poder".
Caso se converta em medidas concretas, o texto representará a primeira vitória de Tarso Genro desde que assumiu a presidência da legenda. Ao lado do senador Aloizio Mercadante, Genro pretende comandar um grupo moderado que, em aliança com outras forças do PT, crie uma nova hegemonia no partido.
Não há dúvida de que a política empreendida pelo grupo de Dirceu foi desastrosa. A esta altura, já ficou claro que a sobrevivência da legenda depende de uma ampla recomposição de seu quadro político-administrativo. Mais que um discurso estéril de vitimização, o PT deve à sociedade sinais de que responderá à crise com uma profunda reformulação interna.
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