terça-feira, agosto 09, 2005

CLÓVIS ROSSI Governo zumbi

FOLHA DE S PAULO

  SÃO PAULO - A presente crise é a primeira crise on-line da história, o que traz a vantagem de um fluxo ininterrupto de informações, mas a desvantagem de tirar a perspectiva.
Dá a sensação de que a crise tem que ser resolvida a cada 24 horas, como se não houvesse antecedentes nem conseqüências dos fatos que vão ficando expostos.
Exemplo: quando do duelo Roberto Jefferson x José Dirceu, muita gente acreditou que ali se daria a bala de prata em um dos dois. Como não houve (nem era para haver mesmo), ficou a sensação de empate.
Não é assim. Olhando para trás e encadeando os fatos, o que se tem é, entre tantas outras coisas, uma baita anomalia: um governo fantasma.
Governos, nas democracias normais, devem ser constituídos por partidos políticos. O governo Luiz Inácio Lula da Silva, hoje, é constituído por um partido que virou zumbi e busca sua "refundação", no dizer de seus próprios líderes atuais.
Quem precisa ser refundado é porque está em estado de suspensão inanimada, certo?
Ou, como prefere o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), líder do governo no Senado, o partido está na situação de quem sofreu "um acidente de carro em que morrem várias pessoas da família. Uma tragédia. Você chora muito. Mas tem que enterrar os parentes".
Faltou dizer que os "parentes" são quase toda a cúpula do partido mais dois ex-líderes no Congresso.
Governos, nas democracias normais, podem formar coalizões. Como o PT as formou. Quem são os demais membros da coalizão que governa o pobre país tropical? O "exército de mercenários", conforme a precisa definição de Roberto Jefferson.
São os partidos cujos líderes foram comprados pelo pessoal que morreu no desastre de Mercadante, mas ainda não foi enterrado.
É ou não um governo zumbi?

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