sexta-feira, abril 15, 2005
LUÍS NASSIF: Nepotismo e parentes
Há uma simplificação que merece ser mais bem ponderada nessa campanha meritória contra o nepotismo. O Estado brasileiro tem um pecado original, o excesso de cargos de confiança podendo ser preenchidos por indicação política. A partir daí, é de uma simplificação perigosa investir contra todos os parentes de homens públicos na administração -pelo mero fato de serem parentes. Em cada caso há que examinar a ficha da pessoa, seu currículo, sua carreira, sua competência. Esse é o ponto central. Nesse mata-burro do nepotismo, pode passar cabo eleitoral despreparado, mas sem laços de parentesco. Parente, ainda que preparado, é barrado.
O fato de ser parente de alguma autoridade não credencia ninguém para ocupar um cargo público. Mas também não pode descredenciar, desde que não seja em cargo sob indicação direta do parente. É uma caça às bruxas desnecessária, que acaba desviando do foco central do problema.
Nas empresas privadas, há muito se acabou com a história de que parentes ou casais não podem trabalhar na mesma empresa. Cuida-se para que um parente não tenha comando sobre outro, para evitar favoritismo ou conflitos familiares. Mas não passa disso.
A maior rede de supermercados do país foi montada com dois irmãos -Luiz Carlos e Silvio Luiz Bresser-Pereira- atuando diretamente com o presidente da companhia. Dois dos maiores craques da história do futebol brasileiro -Sócrates e Raí- são irmãos. Se fossem dois craques do serviço público, um deles teria a carreira prejudicada.
Mesmo nos casos de cargos pessoais de confiança, a indicação de um parente deveria ser vista com outros olhos. Se um deputado indica um parente desqualificado para um cargo remunerado em uma estatal, a incompetência se refletirá diretamente sobre o resultado da companhia. Mas, se, para um cargo de assessoria pessoal, necessite de um assessor de sua estrita confiança, nada mais natural que empregue alguém do círculo familiar ou de amigos. Se o sujeito não for competente, azar do deputado. Mas é ridículo esse índex aos parentes. Cria-se uma situação hipócrita de deputados trocando chumbo na indicação de parentes.
Repito: há que insistir na redução de cargos de confiança e ser rigoroso com a competência dos indicados para cargos públicos em geral. Mas nem toda serpente é parente; nem todo parente é serpente. Não se podem ignorar currículos apenas pelo fato de serem de parente de alguém influente.
Cheiro de crise
Há uma esquizofrenia no ar. Os indicadores e as previsões são de crescimento do PIB. No dia-a-dia, são cada vez mais fortes os sinais de piora do ambiente econômico. Tenho recebido muitos e-mails de leitores indagando se a crise "acontece só comigo". Em parte se explica pelo fato de o desempenho das empresas ser feito pela análise dos balanços das grandes companhias. Em parte pelo fato de os balanços refletirem a situação cambial anterior.
Mesmo assim, há cheiro de estagnação econômica no ar.
Folha de S.Paulo
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