sexta-feira, abril 15, 2005

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS:O BC e a armadilha da inflação




Algumas convicções dos economistas estão sendo testadas, nestes últimos meses, aqui e nos EUA. O presidente do Fed chamou isso de "conundrum". Alan Greenspan buscava nessa pouco usada expressão da língua inglesa -algo como enigma, em português- uma imagem para sua decepção com o comportamento dos juros de longo prazo nos mercados financeiros. No Brasil, podemos usá-la em relação ao comportamento de nossas exportações diante da valorização expressiva do real e da inflação, dado o brutal aumento dos juros nos últimos meses.
Vamos refletir sobre o "conundrum" representado pelo comportamento dos preços diante da política de aperto monetário exercitada pelo Banco Central ao longo dos últimos nove meses. Afinal, desde que o Copom iniciou o aumento de juros, em setembro do ano passado, com a taxa Selic passando de 16% para os atuais 19,25% ao ano, a inflação, em 12 meses, cresceu de 6,70% para 8%, agora em abril.
Esse enigma, para adotarmos definitivamente a língua de Camões, fica ainda mais dramático quando consideramos o modelo econométrico do BC para prever o comportamento futuro da inflação. Por essa bússola estatística, deveríamos estar convergindo para uma inflação de 5,1%, no ano civil de 2005, e não ameaçados de ver o teto da banda de flutuação da inflação ser ultrapassado.
Um exercício aritmético simples, considerando que o IPCA de julho deve ser pressionado pelos reajustes de preços administrados, é suficiente para chegarmos à conclusão de que o teto de 7%, estabelecido para 2005, está realmente ameaçado. Basta um aumento mensal do IPCA superior a 0,46%, entre agosto e dezembro próximos, percentual que está dentro da flutuação dos últimos meses, para que isso venha a ocorrer. Em outras palavras, o evento de uma superação do limite superior para a inflação em 2005 é perfeitamente viável hoje.
A grande pergunta do mercado financeiro, nestes dias que antecedem uma nova reunião do Copom, é a seguinte: como vão reagir, aos riscos dessa desmoralização pública, os diretores do BC? Vão manter os termos da última reunião, que apontavam para uma convergência entre inflação real e as metas fixadas para 2006? Ou vão reagir de maneira menos sangüínea quanto aos riscos em relação ao chamado teto da meta e continuar a aumentar os juros?
O leitor da Folha conhece minha opinião sobre a política monetária no Brasil. Há vários anos venho participando desse debate e procurando defender uma visão mais keynesiana sobre essa importante questão. O que representa esse caminho na discussão sobre a inflação e a atuação do Banco Central nos dias em que vivemos? Ele busca entender, primeiro, a dinâmica da formação de preços na economia brasileira, para depois passar, em uma segunda fase, à chamada modelagem dessa dinâmica. Não foi o que aconteceu no Brasil, em 1999, quando da criação do atual sistema de metas de inflação.
Vivíamos, à época, uma crise grave, em razão do colapso do sistema cambial implantado após o Plano Real. O sistema de metas de inflação foi implantado, portanto, sem uma discussão mais profunda sobre suas características operacionais. Optou-se por medir a inflação por meio de um índice cheio, isto é, sem a devida separação entre preços livres e administrados e, no segmento livre, entre preços de alta volatilidade e os de comportamento mais estáveis. O prazo para medir o comportamento da inflação, o ano civil, também foi fixado sem a devida reflexão.
Tudo isso pôde ser explicado, à época, pela urgência e pelas condições em que o sistema de metas foi implantado. Posteriormente, com o sucesso obtido nessa transição tão dramática, essa precariedade foi substituída por um sentimento de orgulho e certeza de que uma obra perfeita havia sido construída. Qualquer crítica ao sistema era recebida como manifestações claras de "inflacionismo irresponsável". Espero que os problemas que estamos enfrentando agora recoloquem a discussão desse tema em termos mais responsáveis.

Folha de S.Paulo

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