sexta-feira, maio 25, 2007

A mão pesada da Rússia


Novo romance de Martin Amis examina a
relação entre o totalitarismo e a "alma eslava"


Jerônimo Teixeira

VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Trecho do livro

De barco, pelo Rio Ienissei, um punhado de turistas segue para o Círculo Ártico, onde visitará o que sobrou das instalações de um gulag, um campo de concentração para dissidentes da antiga União Soviética. Entre os viajantes segue um russo octogenário que, nos anos 40 e 50, foi um interno do campo – é ele o narrador de Casa de Encontros (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 240 páginas; 39,50 reais), de Martin Amis, 57 anos. Com amargura, o personagem constata que os visitantes do campo são "deploravelmente poucos". O comissário de bordo confirma que o turismo para o gulag sempre deu prejuízo. Esse episódio dá uma noção da ironia devastadora que marca o novo livro de Amis: a Rússia pós-comunista se arrisca em transformar seus monumentos de infâmia em pontos turísticos, mas até esse empreendimento duvidoso se revela um fracasso econômico. Casa de Encontros nasceu das pesquisas que Amis fez sobre o comunismo para escrever Koba the Dread (Koba o Terrível, sem tradução no Brasil), ensaio sobre Stalin. Rompendo uma série de obras de ficção recebidas com frieza pela crítica, como Trem Noturno e Yellow Dog, o novo romance foi saudado como uma reflexão sobre a natureza dos regimes totalitários. Sim, em grande parte, ele cumpre esse propósito. Mas sua crítica ácida não se limita à extinta União Soviética. Também atinge a Rússia pré e pós-comunista. Amis, o inglês, dedicou-se a retratar a "alma eslava". E não pintou um quadro lisonjeiro.

Reprodução
Cena desenhada por um militar do gulag: campos de concentração transformados em pontos turísticos que dão prejuízo

A narrativa de Casa de Encontros toma a forma de uma carta escrita pelo protagonista, em 2004, para a sua filha, nos Estados Unidos. Ele retorna à Rússia depois de décadas de ausência – para morrer. Figura pouco exemplar, o narrador não tenta conquistar a simpatia do leitor. Soldado na II Guerra, estuprou várias mulheres na marcha Alemanha adentro (era a prática corriqueira do Exército Vermelho). As razões de sua prisão, depois da guerra, não ficam muito claras. Os motivos mais fúteis serviam para aprisionar alguém como "fascista": elogiar o Ocidente, por exemplo, era crime. Depois do gulag, o narrador acaba se tornando negociante de armas para o mesmo estado que o havia submetido à fome, à tortura, à escravidão.

A história se articula em torno de um triângulo amoroso formado pelo narrador, seu irmão mais novo, Liev – também prisioneiro do mesmo campo de trabalhos forçados –, e Zóia, uma intelectual judia bela e liberal, dotada de "nádegas brasileiras" e "peitos californianos". A casa de encontros do título refere-se a uma cabana na qual os prisioneiros do gulag eram eventualmente autorizados a receber visitas conjugais. É lá que Liev recebe Zóia, sua mulher, para uma noite de sexo que mudará para sempre sua vida – para pior. O amor fica contaminado, sujo pelo ambiente do gulag: uma vez em liberdade, Liev não conseguirá dar continuidade à relação com Zóia. Fará de tudo para sabotar o casamento, até precipitar o divórcio. E é só depois da morte de Liev que seu irmão mais velho tentará um avanço amoroso sobre Zóia. Será um momento patético, marcado pela violência.

O entrecho amoroso é um tanto falho. O triângulo se desfaz pelo vértice: a figura de Zóia é vaga, difusa demais para justificar a obsessão dos dois irmãos. Mas Amis quase convence seu leitor de que é um russo, tal a familiaridade com que trata as misérias cotidianas da vida soviética, dentro e fora do campo de prisioneiros. O horror do gulag está magnificamente sintetizado na cena em que Uglik, um guarda que perdeu os dedos por causa do frio glacial, tenta acender um cigarro com as mãos recentemente mutiladas. E a miséria – moral, econômica, política – da Rússia pós-comunista ganha uma representação alegórica inquietante na descrição igualmente magistral de um bando de cachorros selvagens que vagueia pelas ruas de uma desolada cidade do Ártico.

A "repugnante proximidade do estado" que estava no cerne da experiência totalitária só não foi representada com perfeição por um detalhe curioso: os comunistas de Amis são estranhamente silenciosos. As palavras de ordem marxistas, as dissidências internas do partido, a propaganda oficial figuram de forma muito discreta no livro. A própria palavra "comunista" surge pouco. Amis parece sugerir que, embora só pudesse ter florescido plenamente na Rússia, o comunismo foi uma contingência passageira: o autoritarismo da "mão pesada russa" o precedia, e continua em vigor depois da queda do regime marxista. Trata-se de uma tese controversa. É uma lástima que a Rússia de Putin, com seus ex-espiões e dissidentes assassinados, não possa lhe oferecer uma contestação cabal.

Menos que zero

"Falei para Liev que suas chances de sobrevivência eram boas. No gulag, não se pode dizer que as pessoas morriam feito moscas. Em vez disso, eram as moscas que morriam feito pessoas. (...) Ali era o Ártico. O que o corpo faz, no campo, é consumir a si mesmo lentamente; meu irmão agora estava mais grosso nos ombros e no peito, mas, com um metro e sessenta de altura, ele continuava a ser uma refeição parca. Faça as contas e as perspectivas dele eram exatamente zero. Não, eram menos que zero."

Trecho de Casa de Encontros



Igualmente ruim

Harlingue/Roger-Viollet/AFP
Trotski: combate aos "fermentos desagregadores"
da arte


Liev, um dos personagens de Casa de Encontros, é um poeta moderno frustrado, silenciado pelo contexto político. O comunismo, tal como o nazismo, foi hostil ao modernismo, considerado sintoma da decadência burguesa. Saudável era a arte realista soviética, com seus operários musculosos e camponeses corados. Em alguns meios de esquerda, ainda vigora a idéia de que a situação teria sido diferente se Leon Trotski, o bolchevique intelectual, houvesse subido ao poder no lugar do tosco Stalin. Literatura e Revolução (tradução de Luiz Alberto Moniz Bandeira; Jorge Zahar; 256 páginas; 32 reais), coletânea de Trotski recentemente relançada, desmente essa visão. Trotski tinha, sim, mais sensibilidade artística do que Stalin. Mas sua aparente defesa da liberdade artística vem sempre acompanhada de cláusulas de exceção. Ele diz, por exemplo, que não cabe ao Partido Comunista ditar os rumos da arte. Mas também adverte que o PC deve combater as tendências artísticas "venenosas" que introduzem "fermentos desagregadores nos meios revolucionários". Exercícios de história alternativa são sempre temerários: nada indica que a União Soviética teria sido menos opressiva com Trotski no poder.