sábado, novembro 25, 2006

VEJA Entrevista: David Rockefeller


Um velho amigo

O bilionário americano fala de sua relação
com o Brasil e diz que a filantropia é um
dever das empresas


Tania Menai, de Nova York

Fred Conrad/The New York Times

"Se não existissem bilionários e milionários, duvido que o capitalismo tivesse sobrevivido"

O banqueiro e filantropo americano David Rockefeller, de 91 anos, carrega dinheiro no sobrenome. Ele é o único neto vivo de John D. Rockefeller, o homem mais rico do mundo no início do século passado e fundador da Standard Oil, o primeiro grande conglomerado da indústria petrolífera. Com uma fortuna pessoal estimada em 2,6 bilhões de dólares, David Rockefeller figura entre as 300 pessoas mais ricas da atualidade. Entre 1961 e 1981, ele esteve no comando do banco Chase Manhattan, do qual era também o maior acionista. Durante esse período, o Chase Manhattan tornou-se um dos maiores credores individuais da dívida externa brasileira. Posteriormente, como consultor do banco, ele fez a intermediação com o governo brasileiro para a renegociação da dívida. A relação com o Brasil vai além: David Rockefeller esteve no país mais de uma dezena de vezes, foi proprietário de uma fazenda em Mato Grosso e sua filha Peggy trabalhou como voluntária em favelas cariocas. Nesta semana, ele desembarca no Brasil com um grupo de cerca de trinta investidores americanos. Antes de viajar, David Rockefeller concedeu a seguinte entrevista a VEJA, em Nova York.

Veja – O senhor fundou duas instituições para promover as relações entre os Estados Unidos e a América Latina. Por quê?
Rockefeller – Poucos sabem, mas viajo pela América Latina há sessenta anos. Vim ao Brasil pela primeira vez em 1948, com meu irmão Nelson. Ele foi o coordenador de Relações Interamericanas do presidente Franklin Roosevelt durante a II Guerra e, em 1944, tornou-se subsecretário de Estado para a América Latina. Em razão desse trabalho, Nelson ficou amigo de vários brasileiros, especialmente Walter Moreira Salles, a quem tive a sorte de conhecer logo na primeira viagem. Desde o começo, fiquei encantado com a beleza do país e com a energia e o entusiasmo dos brasileiros. Minha experiência com o continente fez com que eu criasse a Americas Society e o Conselho das Américas, há 41 anos. O papel de ambas as entidades é promover o entendimento no continente e fortalecer os laços entre os setores público e privado da região. Nossa nova estratégia consiste em levar membros da organização em viagens para a América Latina. A visita desta semana ao Brasil é a terceira em três anos consecutivos. Para muitos de nossos membros, a maioria empresários, o Brasil representa o mercado mais importante para investimentos na América Latina.

Veja – O senhor acompanha os acontecimentos brasileiros há seis décadas. Como o senhor avalia a trajetória do país nesse período?
Rockefeller – O Brasil é um dos países mais influentes da região, com grande potencial de desenvolvimento. Também o vejo como um líder, devido a seu tamanho e sua relevância política. O Brasil é hoje diferente do país que conheci décadas atrás. A economia está estável e as instituições democráticas fortaleceram-se. As eleições recentes, por exemplo, não causaram as preocupações e as volatilidades financeiras de quatro anos atrás. Nos próximos anos, o Brasil deveria se concentrar em buscar crescimento e sustentabilidade. O país parece ter deixado os momentos difíceis para trás e precisa agora dar uma vida melhor a seus cidadãos. Isso pode ser feito melhorando a educação e os serviços sociais.

Veja – O que o faz pensar de forma tão otimista sobre o potencial brasileiro?
Rockefeller – Os brasileiros têm espírito empreendedor. O Brasil é um exportador de aviões, tem grande papel no setor metalúrgico e uma indústria de software bem desenvolvida. O país possui igualmente enorme potencial para se tornar um líder em energia alternativa, por meio da tecnologia do etanol. Os fundamentos para uma expansão econômica parecem estar todos no lugar certo.

Veja – O papel dos banqueiros internacionais na crise da dívida do Terceiro Mundo nos anos 80 é motivo de controvérsia até hoje. Muitos brasileiros acreditam que eles nos ofereceram empréstimos de que não precisávamos e depois cobraram caro por isso. Foi o que ocorreu?
Rockefeller – Apenas parte dessa história é verdadeira. Os choques do preço do petróleo dos anos 70 concentraram uma grande quantidade de dólares nas mãos das importantes nações produtoras de petróleo. Muitos desses países aplicaram o dinheiro nos Estados Unidos e na Europa. Como conseqüência, os bancos ocidentais, incluindo o Chase Manhattan, do qual eu era presidente naquele período, tinham muitos ativos que precisavam ser reinvestidos. Os países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, necessitavam desse dinheiro, e por isso lhes oferecemos empréstimos. Estes foram estruturados para ajudar a balança de pagamentos de tais países e também para financiar grandes projetos de infra-estrutura, como hidrelétricas, estradas e portos. Foram empréstimos legítimos. Não conheço suficientemente a situação do Brasil para saber se algum funcionário brasileiro recebeu propina, como aconteceu em alguns países. O Chase não ofereceu subornos. Não fazemos negócios dessa maneira.

Veja – O senhor foi um ardente defensor da economia de mercado durante os anos da Guerra Fria. Alguma coisa mudou nos argumentos que o senhor utiliza ao debater hoje esse assunto?
Rockefeller – Não. Como era de esperar, sou um grande defensor da empresa privada. Acredito que essa é a forma mais eficiente e prolífica de organização econômica. A história provou que o capitalismo é bem superior ao comunismo, que apenas retardou o crescimento econômico e reprimiu a liberdade. As empresas privadas e o capitalismo, no entanto, funcionam melhor quando vêm acompanhados de instituições democráticas, baseadas em leis que de fato funcionem e sejam respeitadas.

Veja – Uma das críticas ao capitalismo diz respeito a sua capacidade de produzir um número crescente de milionários, mas sem conseguir pôr fim à pobreza. Como se explica esse paradoxo?
Rockefeller – A resposta mais simples é a seguinte: o ideal não deve ser inimigo do possível. A crítica não leva em consideração o fato de milhões de pessoas viverem com conforto e razoável segurança em sistemas capitalistas. Aliás, se não existissem bilionários e milionários, duvido que o capitalismo tivesse sobrevivido. O que realmente importa é o surgimento de uma grande classe média e a redução do número de pessoas vivendo na pobreza. Se pesarmos os prós e os contras, veremos que o capitalismo vem dando vida melhor a um número cada vez maior de pessoas. A sociedade e os governos precisam entender que o assunto de maior impacto da atualidade é a necessidade de crescimento sustentável e equitativo. É preciso chegar a um compromisso para criar regras previsíveis e sustentáveis nos países, com investimentos em boa educação primária para toda a população. Os governos devem também investir mais em infra-estrutura, como transporte e serviço social básico, a fim de promover o crescimento.

Veja – A família Rockefeller sempre disse que um banco não tem de ser o maior, e sim o melhor. O senhor, que foi banqueiro por 35 anos, concorda que no mercado financeiro tamanho não é documento?
Rockefeller – Do meu ponto de vista, tamanho é documento, sim. Especialmente agora que as instituições financeiras têm de operar globalmente. Isso faz com que seja necessário dispor de enormes reservas de capital e ativos para ser competitivo. É um fato, no entanto, que um banco, seja qual for seu tamanho, deve ser administrado com eficiência e oferecer serviços excelentes aos clientes.

Veja – Qual a relevância da filantropia para os negócios?
Rockefeller – Todas as empresas devem ser responsáveis em relação ao bem-estar de sua comunidade. Esse princípio deveria ser uma prioridade de todas as companhias, juntamente com a rentabilidade e o crescimento a longo prazo. Milton Friedman, o grande economista da Universidade de Chicago que morreu recentemente, e eu discordávamos bastante nesse ponto. Ele acreditava que as corporações tinham apenas uma responsabilidade: gerar lucros. Eu penso que é possível ganhar dinheiro e também se preocupar com a qualidade de vida da sociedade.

Veja – De que maneira os ricos e as empresas da América do Sul poderiam se inspirar na tradição filantrópica americana?
Rockefeller – Seria um erro se as nações latino-americanas tentassem simplesmente imitar as instituições filantrópicas dos Estados Unidos e da Europa, desenvolvidas ao longo de muitos anos. Cada país da América Latina tem tradições enraizadas de caridade e sociedades civis muito vibrantes. Essa é a base sobre a qual uma estrutura filantrópica local deve ser construída.

Veja – Cada um de seus filhos adotou uma causa própria. Sua filha Peggy, por exemplo, envolveu-se com projetos sociais no Brasil. A filantropia faz parte da educação que eles receberam na infância?
Rockefeller – Sim. Tenho quatro filhas e dois filhos. Cada um deles desenvolveu interesses filantrópicos próprios. Peggy, em particular, tem feito muitos trabalhos no Brasil. Ela chegou a passar dois ou três verões no Rio de Janeiro, durante a faculdade, trabalhando para ONGs de uma favela. O resultado dessa experiência é que ela fala português fluentemente e de vez em quando passa temporadas no Brasil.

Veja – O arquiteto italiano Renzo Piano, que nos anos 70 desenhou o Museu Georges Pompidou, em Paris, disse que "os museus são as catedrais de hoje". O senhor, que é um grande colecionador de obras de arte, concorda com ele?
Rockefeller – Sim, concordo com essa idéia levemente sacrílega de Renzo. Os museus se transformaram nas instituições em que são expostos os símbolos e as idéias mais importantes da sociedade contemporânea. Eles têm hoje o mesmo papel das grandes catedrais do passado, como a de Chartres, na França, e a de São Pedro, em Roma, onde ficavam as obras de arte mais finas de seu tempo. Os museus são capazes de educar os visitantes de diversas formas e sobre os mais variados assuntos.

Veja – Como o senhor vê os recentes escândalos financeiros envolvendo empresas americanas?
Rockefeller – Os diretores da Enron, da WorldCom e de algumas outras companhias americanas traíram a confiança de seus empregados, acionistas e dos americanos em geral. É fundamental notar que quase todos foram indiciados por suas ações, levados a julgamento e, muitos deles, considerados culpados. Alguns ainda estão na cadeia. O que eu quero dizer com isso é o seguinte: da mesma forma que crimes foram cometidos e muita gente foi prejudicada, o sistema judicial funcionou. Para completar, o sistema de regulamentação para o setor empresarial foi ajustado para evitar que esses problemas se repitam no futuro. A maior parte dos americanos se comporta eticamente e toca seus negócios de maneira limpa.

Veja – O senhor participou ativamente da construção e do desenvolvimento da área de Manhattan, onde foram construídas as Torres Gêmeas, derrubadas pelos atentados de 11 de setembro. Que impacto o ataque terrorista teve para o senhor?
Rockefeller – Assisti da janela do meu escritório no 56º andar do Rockefeller Center à queda das torres. Foi um dos momentos mais terríveis da minha vida. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Aquelas mortes e destruição foram inacreditáveis. O episódio lembrou-me as cidades alemãs destruídas pelos bombardeios dos aliados durante a II Guerra. Até hoje não consegui compreender como alguém pode chegar a um nível de ódio a ponto de cometer uma atrocidade daquelas.

Veja – Por que o senhor criou a Stone Barns, uma fazenda de produtos orgânicos, no estado de Nova York?
Rockefeller – Criei esse lugar em homenagem à minha esposa, Peggy, falecida em 1996. Ela era uma fazendeira dedicada e se preocupava com o futuro da agricultura familiar nos Estados Unidos. Temos ali mais de 200 variedades de vegetais cultivados sem o uso de hormônios e de fertilizantes químicos. Queremos mostrar que alimentos plantados de maneira sustentável fazem bem à saúde, à economia local e ao meio ambiente. Temos também dois restaurantes orgânicos na fazenda.

Veja – O senhor teve a oportunidade de conhecer muitas das principais personalidades do século XX, de Pablo Picasso a Sigmund Freud, passando por Saddam Hussein e Nikita Kruschev. Quem o marcou em especial?
Rockefeller – Em meu livro Memoirs, cito muitas pessoas que me influenciaram durante a juventude. Meu pai, John D. Rockefeller Jr., foi o mais importante. Ele, juntamente com a minha mãe, Abby Aldrich, uma das fundadoras do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), criou meus irmãos e eu com valores extremamente fortes, incluindo a convicção de que temos a obrigação de contribuir para a nossa sociedade. Tive sorte de ser criado por pais tão sábios e cuidadosos.

Veja – Qual é o seu segredo para manter o vigor aos 91 anos?
Rockefeller – Simplesmente ainda acho a vida fascinante e espero por cada novo dia. Ainda vou ao escritório diariamente e viajo bastante. Continuo curioso sobre o mundo e tudo o que há nele. Espero que as pessoas se lembrem de mim como alguém que se preocupou com o mundo em que viveu e fez o que pôde para torná-lo um lugar melhor.